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As leis da vida

Rui Gomes, em 27.07.20

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"As duas leis mais irresistíveis das leis da vida fizeram as suas respectivas aparições: a lei do mais forte, porque Vinicius, que custou €17 milhões, fez o seu 19.º golo e sagrou-se o goleador da Liga; e a Lei de Murphy, que atirou com o Sporting para o quarto lugar, com os mesmos pontos do Braga e derrotado no confronto directo com o adversário. E quem treinava os bracarenses no triunfo (1-0) de Fevereiro de 2020? Um tal de Rúben Amorim. Que perdeu os dom da invencibilidade e da intocabilidade: duas derrotas e um empate nas três últimas jornadas da Liga.

Agora que já sabemos que Rúben Amorim sabe como é, porque ele nos guiou pelo ciclo de vida de um treinador - “estado de graça, bluff, o anterior é que era bom”, disse ele -, passemos à fase seguinte: aquela em que Rúben Amorim não sabe como vai ser.

Como em muitas coisas, o que vai ser depende muito da sorte e sobretudo do dinheiro, pois apesar de todas as boas intenções de Amorim - cada lance começa lá atrás, da linha de três, e daí progredir em posse até à baliza do adversário; em sentido contrário, pressiona-se alto -, há um problemazito para resolver.

É que estas ideias interessantes, boas e bonitas de se verem, são as mais difíceis de pôr em prática; exigem bastante jeito para jogar à bola, muito além da experiência e da repetição obsessiva do treino. Em Alvalade está uma classe ainda jovem e francamente curta para grandes objectivos.

E assim o Sporting perdeu o jogo, em que os miúdos de Amorim jogaram francamente melhor do que o rival na segunda parte, pois conseguiram ligar as frases interrompidas, construindo bons argumentos perante a falta de coerência do Benfica, que emudeceu a espaços".

Pedro Candeias, em Tribuna Expresso

publicado às 03:47

A esfregar Salin na ferida

Rui Gomes, em 26.08.18

 

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"A equipa de Vitória empatou quando tinha tudo - e teve quase tudo - para somar três pontos e deixar um dos rivais à mesma distância. Não correu como esperado, ou melhor, como se esperava. E assim há um mito urbano que se mata e outro que se engorda: afinal, José Peseiro não é um pé-frio e é verdade que quem está melhor nem sempre vence. E houve um guarda-redes que se destacou acima de toda a gente".

 

Era ao mesmo tempo bom e mau demais para ser verdade, e era preciso recuar uns anos até encontrar um dérbi tão desigual como este antes de ser jogado. Sabem como é: uma equipa pouco mudada contra outra em que praticamente só faltava mudar os centrais - o que aconteceu, por lesão inesperada de Mathieu - só pode dar num jogo de resultado daqueles.

 

A adivinhada superioridade do Benfica estava legitimada por uma série de informações que foram ditas durante a semana. No Sporting era quase tudo novo: o presidente, o treinador, os laterais, o guarda-redes, o capitão, os avançados, o trinco, o modelo, a estratégia, a táctica, as ideias. E o Benfica apenas tinha de se avir com a falta do dolorido Jonas e as pernas eventualmente pesadas dos três jogos europeus que levava a mais; de resto, tudo na mesma.

 

E agora que o encontro acabou, a verdade é que o Benfica foi realmente superior ao Sporting, porque criou várias oportunidades que o espectacular Salin foi adiando antes do penálti de Nani, e também depois do empate do puto João Félix. O francês terá evitado dois ou três golos e os adeptos clássicos de café dirão que é “para isso que ele lá está”, e ele de facto lá esteve pelo menos em cinco momentos: nos dois cabeceamentos de Rúben Dias na primeira-parte, e nos remates de Pizzi, Zivkovic e Grimaldo na segunda.

 

Só que isto, por si, não justifica o final empatado de um dérbi enérgico, mas mal jogado, carregado de queixinhas, empurrões, rodinhas ao árbitro, e alguns lances duros e outros mal interpretados pela arbitragem - o do penálti disparatado de Rúben Dias não é um deles.

 

O artigo completo de Pedro CandeiasTribuna Expresso, disponível aqui.

 

publicado às 17:02

 

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A 30 de Junho de 2016, Horácio Piriquito, vogal do Conselho Fiscal da Federação Portuguesa de Futebol, partilhou informação da FPF com o comentador televisivo Pedro Guerra, conhecido por defender o Benfica no programa semanal “Prolongamento” (TVI). O conteúdo não é redigido por Piriquito, mas por dois indivíduos: um deles é Paulo Lourenço, secretário geral da FPF, e o outro é um fiscalista da Crowe Horwath, “empresa de auditoria, assessoria financeira, consultoria, gestão de risco, assessoria fiscal e tecnologias”, como consta no site.

 

O contexto é simples de explicar e tem dois momentos: no primeiro, Paulo Lourenço pede a opinião à Crowe Horwath, com quem a FPF tem uma ligação contratual, sobre a tributação e o regime fiscal a aplicar na venda da antiga sede da Federação, na Praça da Alegria; no segundo, o especialista responde às dúvidas que lhe foram colocadas por Paulo Lourenço.

 

Ambos os textos, sabe o Expresso, foram enviados de uma só vez por Horácio Piriquito a Pedro Guerra com o selo de confidencialidade. Ao nosso jornal, fontes próximas deste processo garantem que a troca entre Paulo Lourenço e a Crowe Horwath existe e que é classificada como “comunicação interna”. Fonte oficial da FPF diz “não ter mais nada a dizer” além do que já foi dito durante a semana, quando a revista “Sábado” revelou que Horácio Piriquito passou dados sobre auditorias da FPF a Pedro Guerra.

 

A Federação avançou com uma queixa-crime a Horácio Piriquito, e este demitiu-se do cargo, defendendo, em comunicado, a sua inocência (“não pratiquei actos ilícitos”) e assumindo uma “amizade de 20 anos” com Guerra. Piriquito é um conhecido benfiquista, com participações em alguns programas da BTV, o último dos quais o “Jogo Limpo”, a 3 de Novembro deste ano.

 

A PWC e o Sporting

 

É esta estreita relação que terá levado, sabe também o Expresso, Horácio Piriquito a partilhar o parecer da consultora PWC relativamente às contas do Sporting 2015-16. À data que o fez, a informação já era pública, mas Piriquito sublinhou alguns pontos do parecer quando o enviou a Pedro Guerra e a André Ventura, incitando-os a usarem o que estava na rubrica da “Reserva” da PWC nos programas “Prolongamento” (TVI) e “Pé em Riste” (CMTV). Os comentadores televisivos agradeceram e prometeram seguir as dicas.

 

Questionado pelo Expresso sobre estas novas informações, Horácio Piriquito respondeu assim: “Não vou falar mais sobre este assunto. Só o farei se entender que o devo fazer.” Pedro Guerra, por sua vez, disse que não iria falar sobre “toda esta farsa”. “Escreva o que bem entender e a sua consciência ditar”, afirmou. Já André Ventura reconheceu a existência deste e-mail e disse ser frequente a troca de ideias com Horácio Piriquito para esclarecimento de dúvidas relacionadas com temas económicos. “Mas nunca recebi informação confidencial da FPF, apenas debatemos textos públicos. Sou amigo dele.”

 

[Nota: estatutariamente, cabe ao Conselho Fiscal “fiscalizar os actos da administração financeira da FPF bem como o cumprimento dos Estatutos e das disposições legais aplicáveis”. O vogal do Conselho Fiscal é pago pela FPF apenas quando vai a reuniões convocadas pelo organismo.]

 

Este é mais um episódio do caso dos e-mails, que arrancou quando Francisco J. Marques divulgou informações trocadas entre Pedro Guerra e Adão Mendes, antigo árbitro, há vários meses, e que entretanto resultou numa guerra mediática mas também judicial que se resume aqui: o Benfica tentou, em vão, impedir que o Porto Canal revelasse os e-mails; houve buscas da PJ no Dragão e na Luz; o caso está entregue ao Ministério Público, que investiga a origem (e a eventualidade de crime) dos e-mails e o conteúdo dos mesmos; e Francisco J. Marques prosseguiu com a sua agenda, tendo apresentado, na sexta-feira de manhã, o livro “Polvo Encarnado”, que se baseia nas informações que os portistas têm em mãos.

 

Artigo da autoria de Pedro Candeias, jornal Expresso

 

publicado às 12:27

Jorge Jesus é um optimista

Rui Gomes, em 24.09.17

 

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Excelente crónica de Pedro Candeias, jornal Expresso, sublinhando muito do que está à vista e que já foi comentado pelos leitores sobre as opções de Jorge Jesus em Moreira de Cónegos. Claro, 'está à vista' de todos menos de Jorge Jesus, que não vê - o mais provável - ou é impedido de ver, pelo seu ego e casmurrice:

 

Como é óbvio, Jorge Jesus é um optimista. Só um optimista pode achar que as coisas lhe vão correr bem, sim senhor, mesmo que tudo tenha acabado de lhe correr mal - como no Benfica, quando perdeu três competições e voltou no ano seguinte, e no ano depois desse, para ganhar.

 

E só um optimista como ele pode achar que é possível ganhar jogos em Moreira de Cónegos - de todos os lugares, o mais próximo que há de um campinho de batalha no futebol tuga - só com um trinco como William, um médio como Bruno Fernandes, dois alas como Bruno César e Gelson, e dois avançados como Bas Dost e Alan Ruiz. Nenhum deles é mau de bola da mesma forma que nenhum deles é rapaz para grandes correrias e batalhas como, bom, Battaglia é.

 

De todos eles, Ruiz é o menos dado a coisas do corpo-a-corpo, e por aqui também se explica a pouca intensidade que o Sporting pôs na primeira-parte. Com Battaglia no banco e Acuña a descansar para a Champions, Jesus quis atacar o jogo com muitos artistas e poucos artesãos, e deu-se mal.

 

O meio-campo foi sempre um território explorado residualmente, e nem trocando os extremos (Gelson à esquerda e Bruno César à direita) os sportinguistas foram capazes de combinar, ligar pontinhos, fazer jogadas, ou mesmo de controlar o adversário quando este ultrapassava a frágil zona de pressão para se chegar à frente; enfim, e resumindo, o Sporting não foi capaz de jogar o futebol que já jogara este ano.

 

A isto somou-se a evidente baixa de forma de Gelson, que resolvia sozinho o que dois não conseguiam, e os disparates crónicos de Piccini, que continua a correr como um jogador de râguebi dos anos 90 com uma bola nos pés. Naquele instante em que Rafael Costa disparou para Rui Patrício e o golo apareceu antes do intervalo, ficou claro que Jesus teria de puxar orelhas no balneário e pôr sangue fresco, ou quente, vá, na segunda-parte.

 

E então entrou o enérgico Doumbia para o lugar do dandy Ruiz, e o Sporting cresceu a espaços e chegou ao empate num lance caricato; mas os auto-golos também contam e este entra directamente para a contabilidade dos mais disparatados do ano: o guarda-redes defendeu para os pés do defesa e, pronto, já está. Mas se acha que isto foi o suficiente para o Sporting dar um passo seguro rumo à vitória, desengane-se, porque o Moreirense continuou juntinho e à espreita de uma nesga de espaço, normalmente pelo talentoso Tozé - e o jogo partiu-se.

 

As rotações subiram um bocadinho, é verdade, porque Jesus pôs Battaglia lá dentro, mas, ao fazê-lo, retirou Bruno Fernandes, provavelmente a pensar no Barcelona, e o meio-campo continuou amputado: se antes tinha cérebro e pouco músculo, agora tinha cabedal e pouco critério; num mundo ideal, os dois conceitos devem coexistir, mas Jesus quis construir uma realidade alternativa e até ao fim houve correrias, coração, força, algumas ocasiões e poucas ideias. E nenhum golo.

 

O Sporting perde os seus dois primeiros pontos, vê o FC Porto escapar-se na liderança da Liga, recebe o Barcelona a meio da semana e os portistas no final da mesma.

 

Este resultado, claro, muda as contas.

 

publicado às 11:58

 

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Andamos nisto: os insultos, as queixas da arbitragem, os apertos e as agressões aos árbitros, as cartilhas e os comentadores que interpretam papéis como actores do método.

 

Há três teorias que podem explicar isto: alguém acha que isto funciona ou isto realmente funciona; ou, então, alguém quer fazer-nos acreditar que isto funciona e à falta de uma contraprova científica continua-se o joguinho a que todos convencionámos chamar spinning.

 

Das três, esta é a minha preferida, porque há aqui um racional bem portuguesinho: a desresponsabilização. Quando a equipa perde, culpa-se o árbitro, alerta-se para a manha do malandro do adversário, esmiúçam-se lances em super-slow-motion no Twitter e no Facebook para troll comentar, escrevem-se notas para os comentadores e estes amplificam a mensagem – e, puff, em menos de um dia estão esquecidos os erros e as falhas, e, afinal, é tudo um grande logro, um embuste, uma vergonha, etcetera, etcetera.

 

Dito assim e levado à letra, tornar-se-ia irrelevante o trabalho de quem trabalha nisto, porque o jogador escusava de jogar porque está tudo feito para o rival ganhar, e o treinador não precisava de treinar porque, lá está, isto está feito para o rival ganhar.

 

Só que quem não recebe para estar no futebol, mas que paga para o ver, entra numa encruzilhada: os que gostam de forma desapaixonada tendem a afastar-se do jogo, fartos do ruído, da histeria e do constante passa-culpa; os fanáticos, os irrazoáveis, gostarão cada vez mais, porque o discurso agressivo lhes cai no goto e lhes alimenta a rivalidade, transformando-a em ódio.

 

E como o ódio é irrazoável e a irrazoabilidade leva à violência, as coisas ruins acontecem - e quando as coisas ruins acontecem, alguém é, normalmente, responsabilizado num mundo civilizado.

 

Só que ninguém é. E aí voltamos à desculpabilização, como se os insultos e as insinuações e as acusações e as comparações e as metáforas e as alegorias fossem apenas palavras inconsequentes e não ajudassem a montar o circo que é o futebol português.

 

 

Pedro Candeias - jornal Expresso

 

publicado às 18:10

 

Aconteceu no “Prolongamento” da TVI24 com Pedro Guerra: “Isto é claramente um lance em que o Filipe empurra o Jonas, que se desequilibra e vai bater no Nuno Espírito Santo. Queria era apreciar o lance imediatamente a seguir, em que Maxi agride Jonas, mas disso o Sporting não quer falar. No afã de ajudar o Porto, esqueceu-se do lance.”

 

Naquela noite de 3 de Abril, Pedro Guerra entregou-se novamente ao desempenho do frenético personagem que criou para o programa em que faz a defesa do Benfica, a sua defesa do Benfica. Apareceu como sempre faz, de fato, camisa e gravata e munido de folhas e dossiês onde constavam os seus argumentos válidos, saídos da sua cabeça, porque, diz ele amiúde, está ali em nome pessoal e não como porta-voz do clube. Não é bem assim.

 

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A conta de e-mail

 

Horas antes de se pegar com José Pina e Manuel Serrão, os dois outros comentadores do “Prolongamento”, Pedro Guerra recebeu no seu correio electrónico um documento com sete páginas de Word e com o cabeçalho “SLB, Época 2016/17, SEMANA 36 — 03/10 abril, NOTAS”. No ponto 2, “sobre o choque casual entre o Jonas e o NES”, está a seguinte frase: “Como é que alguém adivinha que vai ser empurrado por um adversário e que desse empurrão vai entrar em desequilíbrio e chocar com alguém [...]?” Isto é mais ou menos o que Guerra diria mais tarde em antena; acrescentou-lhe o picante Sporting, que também estava no e-mail que caíra na sua conta: “É uma vergonha que os jornalistas e comentadores ligados ao Sporting [...] falem do Jonas e não falem das situações mais DISCUTÍVEIS.”

 

Bem-vindos à ‘cartilha’

 

O departamento de comunicação do FC Porto cunhou a expressão quando revelou que os comentadores televisivos identificados como benfiquistas recebiam extensos briefings semanais para se prepararem para os debates televisivos. A prática é comum aos clubes rivais — no FC Porto comunica-se por WhatsApp e Bruno de Carvalho chegou a enviar pessoalmente informações aos comentadores —, mas a estratégia do FC Porto foi colar a ‘cartilha’ a Luís Filipe Vieira e aos dirigentes do Benfica, que sempre se demarcaram oficialmente do que dizem Pedro Guerra (TVI24), André Ventura (CMTV), Rui Gomes da Silva (SICN) ou João Gobern (RTPN), para se manterem à margem das polémicas.

 

O e-mail de Luís Filipe Vieira consta entre os que recebem os documentos — o Expresso teve acesso a várias ‘cartilhas’ de diferentes momentos de outras épocas, nas quais o endereço de Vieira surge em primeiro lugar —, e isto implica directamente o líder do clube na estratégia comunicacional. Que é continuada, consistente e organizada e usa palavras e frases agressivas como “desprezo”, “mentiras”, “louco chamado BdC [Bruno de Carvalho]”,marginais/criminosos [Super Dragões]”,manipulação”. E todas elas são escritas pela mesma pessoa.

 

O escritor-fantasma

 

Nas manhãs de segunda-feira, Carlos Janela lê os jornais, pesquisa casos de arbitragem dos jogos do fim de semana, faz um ou outro telefonema, senta-se ao computador e começa a escrever. Perde dois, talvez três pares de horas naquilo, até completar um documento Word com muitas páginas, algumas letras maiúsculas, palavras a negro, bastantes pontos de discussão e, sobretudo, recomendações. Depois envia o documento por e-mail para os vários comentadores afectos ao Benfica. O objetivo é apresentar o máximo de tópicos e de informações para que Guerra, Ventura, Gomes da Silva ou Gobern possam escolher o ângulo — e para que isto não pareça tão concertado como na realidade é. Aliás, quem conhece o mecanismo diz que parte dos comentadores fala entre si, para que haja uma “uniformização do discurso”, para não ser uma “grande rebaldaria”.

 

Todas as semanas há uma nova ‘cartilha’, e Carlos Janela é o seu autor desde o início, desde 2010, o ano em que conquistou espaço de influência junto de Luís Filipe Vieira. Um ano depois de ter entrado para o clube, pela mão de Jorge Jesus. Os dois cabem nesta história.

 

Os irmãos de armas

 

Carlos Janela é uma velha raposa do futebol português, com passagens por Famalicão, nos anos 80, Sporting, no final dos anos 90, e Belenenses, na primeira década deste século. Foi director desportivo nesses três clubes, e nesses três períodos houve casos, como o que envolveu o Macedo de Cavaleiros e o Fafe em 1988 (uma invasão de campo e uma acusação de suborno) e o “Processo Meyong” (utilização irregular do jogador), e contratações falhadas (em Alvalade, ficaram célebres as de Didier Lang, Skuhravy e Ouattara). É no Belenenses que trabalha com Jorge Jesus, e é daí que muita gente data o início da relação entre ambos, mas a verdade é que esta começou há muito, muito tempo, quase há 40 anos, quando os dois coincidiram no Riopele — Janela era juvenil, Jesus era sénior, tornaram-se amigos. E foi essa mesma amizade que levou o treinador a interceder por ele junto dos dirigentes do Benfica quando foi contratado em 2009: Janela era o tipo indicado para andar nos bastidores, porque conhecia meio mundo e porque mantinha boas relações com clubes de associações nortenhas.

 

O ex-director desportivo do Belenenses começou como consultor do Benfica e trilhou o caminho até chegar a autor da ‘cartilha’, coordenando essa função supervisionado por João Gabriel, antigo director de comunicação dos encarnados. Por este trabalho, Carlos Janela recebia cinco mil euros por mês, ordenado que poderá ter subido, talvez duplicado, quando Jesus pulou para o outro lado da Segunda Circular e o quis levar com ele.

 

Queres ser o meu director-geral?

 

Jorge Jesus impôs algumas condições para transitar da Luz para Alvalade, uma delas a ausência de uma cláusula de rescisão, outra a reformulação do futebol profissional. A chamada estrutura. O homem que ele queria para director-geral da bola era Carlos Janela, secundado por Octávio Machado, ambos ligados ao Benfica formal ou informalmente — Octávio chegou a comentar na BenficaTV e a atacar Bruno de Carvalho na CMTV e é amigo de Jesus e de Janela, com quem, aliás, trabalhou no Sporting. Otávio seguiu para Alvalade, mas Janela manteve-se na Luz e terá visto o seu rendimento recompensado, tal como manda o mercado. Por isso, quando ouvir Jesus insinuar que conhece bem as estratégias comunicacionais do Benfica — e ele fá-lo, recorrentemente —, já sabe que está a referir-se a Janela, cuja produção continuou longe dos radares, até ser descoberto.

 

Os indícios da estratégia comunicacional estavam lá, porque os argumentos usados por diferentes comentadores eram semelhantes, mas quando alguém fotografou Luís Bernardo (o novo director de comunicação do Benfica) com Carlos Janela, João Gobern, André Ventura, José Calado e Pedro Guerra começaram a juntar-se os pontinhos que apontavam o trilho que levava diretamente à cúpula encarnada. A estrutura não era só o director desportivo, os jogadores e os olheiros. A estrutura também era a ‘cartilha’.

 

Nota: Carlos Janela respondeu ao Expresso dizendo: “Nunca vou quebrar o sigilo profissional e revelar com quem colaboro.” O Benfica afirmou não ter “mais comentários a fazer”.

 

 

Artigo e ilustração da autoria de Pedro Candeias e Helder Oliveira, jornal Expresso.

 

publicado às 10:30

 

A ordem dos factos é aleatória, a ausência de parágrafos é propositada.

 

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O Benfica fez queixas de Bruno de Carvalho e Bruno de Carvalho disse que toda a gente ficou a saber, a partir daquele momento, quem era o campeão nacional dos queixinhas. Depois, o Sporting fez queixas ao Conselho de Disciplina da FPF de Samaris, Jonas, Samaris, Rui Vitória, Domingos Almeida Lima e Luís Bernardo e ainda se queixou ao IPDJ por causa das claques não legalizadas.

 

Nuno Saraiva escreveu um longo texto no Facebook a defender o seu presidente e a atacar os cronistas sociais Cláudio Ramos e Maya por se meterem na vida privada de BdC - e um deles respondeu-lhe à letra na antena.

 

Na TVi, Pedro Guerra garantiu que Felipe empurrou Jonas para cima de Nuno Espírito Santo e que só não vê quem é cego ou quem nunca jogou à bola. No Porto Canal, o director de comunicação do FC Porto Francisco J. Marques revelou a “cartilha” dos comentadores do Benfica, com 33 páginas, e a BTV contra golpeou - já que é de ‘futebol’ que falamos - com imagens inéditas do clássico para ilustrar uma suposta pressão do banco portista aos árbitros - lembrar que foi a BTV que transmitiu o jogo em directo.

 

Marco Gonçalves, o Marco ‘Orelhas’, rebentou o nariz a José Rodrigues com uma joelhada aos dois minutos de jogo do Rio Tinto-Canelas 2010, confessou que não se lembrava de nada até se mostrar arrependido “de tudo”. Os árbitros recusaram-se a apitar o Canelas 2010 e, no limite, os encontros podem ser conduzidos por alguém que salte da bancada para o relvado.

 

Jorge Jesus estendeu a mão ao rival Rui Vitória e Rui Vitória desviou o assunto quando lhe perguntaram sobre o gesto de Jesus.

 

Entretanto, há jogadores que se atiram para o chão pela força de uma aragem e outros que queimam tempo quando lhes convém, o fosso entre os ricos e os pobres é cada vez maior, há receitas antecipadas das operadoras de TV, os nossos clubes ficaram-se pelos oitavos de final da Champions e na fase de grupos da Liga Europa, os preços dos bilhetes cá dentro sobem e os dos canais pagos não descem, os pais não querem levar os filhos ao estádio, a polícia rasteira e pontapeia um adepto, os fanáticos insultam outros fanáticos, e as redes sociais foram tomadas por trolls.

 

O futebol é um faroeste.

 

Portanto, é recuar até ao Euro 2016, repetir este mantra e entrar em transe:

 

Portugal é campeão europeu.
Portugal tem o melhor jogador do mundo.
Portugal já teve o melhor treinador do mundo.
Portugal tem um presidente que é vice-presidente na UEFA.

Pode ser que isto passe.

 

Pedro Candeias - jornal Expresso

 

publicado às 14:16

Em podendo, Podence corre

Rui Gomes, em 12.03.17

 

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Bastava espreitar o banco de suplentes do Sporting para concluir o óbvio - as coisas foram mal pensadas e pior executadas desde o início. Sem Adrien (lesionado), Alan Ruiz e Bruno César (castigados),Jorge Jesus deixou Campbell e Castaignos de molho e pôs Matheus e Podence no molhe de jogadores que foram a jogo em Tondela.

 

Entre os reforços e os miúdos, J.J. escolheu os últimos porque os primeiros deixaram de lhe dar garantias, se é que alguma vez lhe tinham dado. A ideia que fica é que estes dois (tal como Markovic e Elias) nada acrescentaram, ou pior, só atrapalharam o masterplan de Alvalade com o qual todos os sportinguistas se identificam: a formação. Jesus e Bruno de Carvalho quiseram contrariar a natureza e quiseram-no fazer de uma vez só, esquecendo-se que a genética é uma molécula torcida, sim, mas que não quebra à primeira.

 

É que quando o plano é bom, o melhor é seguir com ele - e neste momento não há melhor plano do que este. Por duas razões: porque a época está perdida e dá para testar soluções em competição a pensar no futuro que aí vem; e, basicamente, porque os miúdos são melhores do que os supostos reforços.

 

Jesus, que nunca dá o braço a torcer, bem pode dizer que é cedo para loucuras, que é preciso ter calma, que o “futebol tem coisas que eles ainda não sabem”, enfim, Jesus pode reinventar a máxima do “Manel” que nenhum sportinguista perceberá, por exemplo, o que andou Daniel Podence a fazer no Moreirense enquanto um tal de André Balada andou por Alvalade.

 

Em Tondela, Podence estreou-se a titular contra uma equipa que pressiona e que fecha e aperta, e ainda assim arranjou espaço para fintar, explodir e assistir Bas Dost.

 

Em Tondela, Podence esteve à direita e à esquerda e no meio, deu velocidade, largura e também jogo interior com algumas tabelas com Dost, Gelson e Matheus.

 

Em Tondela, Podence teria sido eleito o melhor em campo se Bas Dost não tivesse feito quatro golos (dois deles de penálti). Foi a sua intensidade que disfarçou a lentidão de Bryan Ruiz a jogar a “oito”.

 

E em Tondela, foi a sua irreverência que equilibrou o momento menos espevitado de Gelson, um puto que está desgastado por ter carregado a equipa às costas durante muito tempo, provavelmente tempo a mais, porque outros não o faziam.

 

Não sei se Pepa e Jesus falavam a mesma língua quando debateram quem corria mais e melhor, se o Tondela, se o Sporting. O que sei é que ninguém o fez tanto e tão bem neste jogo como Podence.

 

 

Texto da autoria de Pedro Candeias - jornal Expresso

 

publicado às 11:38

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  143. D




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