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A infalibilidade em surgir, de tempos a tempos, uma crise no Sporting, assemelha-se aos dois factos mais incontornáveis da nossa vida – a certeza de que todos pagaremos impostos, e que um dia, morreremos. Por emergentes que se apresentem, os tumultuosos períodos leoninos têm um princípio antropologicamente congénere – existe sempre, à porta 10-A, um prosaico Messias que resolve crises. No Sporting, as soluções dos Profetas eleitos resultam invariavelmente em crises, portanto, nunca se resolvem.

 

Falarmos da demissão imediata de Bruno de Carvalho, tal como promover Rogério Alves ou João Benedito como resolução prosaica desta crise, revelar-se-á tão inútil quanto colocar Marcelo Rebelo de Sousa a gerir uma instituição como a TAP, ou evitarmos o Médico apenas porque se acredita na reecarnação. Nem Alves nem Benedito se afiguram consensuais às necessidades do Sporting, neste momento. Questionemos a sua experiência na gestão de estruturas profissionais, tanto quanto a sua resistência à pressão que a ausência de resultados desportivos possa impôr. Qual o valor acrescentado, no domínio do seu conhecimento, que ambos trariam ao Sporting no futuro? Como lidariam os dois com questões que desconhecem, no âmbito administrativo, não evitando estar dependentes da fiabilidade de conselheiros, tal como sucedeu no passado? Como conviveriam estes apaziguadores natos, com a actual estrutura de Boys criada por Bruno de Carvalho? 

 

Este romantismo por Rogério Alves ou João Benedito, essencialmente fundamentado em empatia deontológica, como Churchill desfrutou em seu tempo, não oferece suporte estrutural, mais do que respeito que ambos nos mereçam. Sem estrutura (sem americanos no caso do célebre estadista WC), e essencialmente sem tempo para formar coligações profissionais de imediato, o Sporting teria uma imediata crise no futuro – aliás, o sebastianismo no Futebol só faz algum sentido, à semelhança do que sucede no SLBenfica ou FCPorto, quando se vencem campeonatos de Futebol. Alves e Benedito não durariam dois anos sem vencer um. Por outro lado, se Bruno de Carvalho abdicar imediatamente, o Sporting ficaria em maus lençóis. Antecipar-se-ia um convénio entre Álvaro Sobrinho e José Maria Ricciardi, que por conseguinte, elegeriam um corpo administrativo encabeçado por alguém do próprio interesse, e não necessariamente do interesse do Sporting. Algo que, por enquanto, seria de jure uma solução, mas no futuro de facto, um problema. 

 

Olhemos com devida atenção para o nosso Clube. O Sporting é grande, mas não é sólido. Tem uma génese, que não é funcionalmente equilibrada. Tem Adeptos extraordinários, mas nem unidos – algo que raramente acontece – detêm o poder de um accionista. Tem um Futuro, mas penitencia-se por comparações entre o Presente e o Passado, ou pelo exercício financeiro A ou B. A verdade, é que hoje vivemos anestesiados por sentimentos paternalistas, onde se fala de Campeonatos esquecidos, dos feitos de Cristiano Ronaldo, do Pavilhão que se ergue, das vendas faraónicas de Atletas, da salvação financeira, num nítido complexo de inferioridade para com um futuro que nos poderia dar muito mais. Todos estes temas, apesar do seu valor, assumem por vezes uma dimensão de submissão ao laissez faire de um Clube que vive tanto de memórias, como os Adeptos de melancolia. O meu protestantismo religioso dispensa ídolos, logo, considero o alcoolismo emocional como um dos principais trunfos da ignorância. Dispenso “Uniões de Aço”, dispenso o “Mundo Sabe”. Porque perante as evidências, dispenso sentir-me traído.

 

As crises geradas pelas administrações do Sporting, terão de nos fazer repensar este presidencialismo conforme conhecemos, do modo como surge, e como cede a pressões externas. Direcções anteriores a Bruno de Carvalho financiaram erros de gestão através do sobreendividamento bancário ou cedência de passes de Atletas como garantias. A actual Direcção, por seu turno, recuperou os mesmos passes mas cedeu a autonomia da SAD (e por consequência, do Clube) – a verdade é que o Sporting continua a viver da cedência de créditos para cumprir com compromissos. Hoje, a actuação de um Presidente limita-se ao enclave compreendido entre compromissos bancários e intenção dos accionistas – estes podem inclusivamente decepar o Clube, retirando o apoio ao Presidente, ou mesmo criar constrangimentos à sua independência em torno da SAD.

 

Perante o cenário que temos, e tendo em conta a redução de influência do suporte consultivo não-executivo do Conselho Leonino, como este era na década de 70 – hoje tido como um mero grupo de pretensos alcoviteiros aristocratas que infelizmente nunca foi capaz de impedir presidencialismos napoleónicos – o Sporting irá continuar a procurar os seus Profetas, e por conseguinte, correr o risco de eleger mais justiceiros sociais como Bruno de Carvalho, ou perdoar Ricciardi’s como tão depressa eleva Jorge Jesus de proscrito a último bastião de sportinguismo.

 

A solução passa, talvez, por um caminho. Começa por terminar, em definitivo, com presidencialismos. Criar-se um Executive Branch cuja soberania se compadeça com a presença de um forte investidor – que adquira imediatamente a posição accionista detida por Bruno de Carvalho e Álvaro Sobrinho, logo após o levantamento do congelamento acionista, ou imponha um aumento de capital que reduza a influência de ambos na SAD –, liderado por um Administrador executivo não-renumerado, com poder consultivo e de veto, subordinando a gestão do Clube, em termos administrativos, de acordo com as ordenações legais que os nossos estatutos impõem e em conformidade com resultados financeiros e desportivos pré-estabelecidos, e obrigatoriamente sujeitos a serem cumpridos. Estruturar toda a SAD, todo o Clube, com pessoas que respondam à responsabilidade tanto quanto correspondam ao que deles se pretende. Acabar-se com a hipocrisia.

 

Tudo começa com António Horta Osório.

 

publicado às 10:30

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