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In(coerência) personalizada

Rui Gomes, em 09.07.20

img_920x518$2019_12_03_14_33_19_1634470.jpgO futebol é um desporto propício ao erro por existirem contactos permitidos e justificados pela grande falta de objectividade das leis de jogo. O factor humano é sempre decisivo na forma como os árbitros analisam e punem as situações em campo, muitas vezes alegando questões de interpretação para justificá-las. O jogo em Moreira de Cónegos é um exemplo clássico pela forma como a ‘interpretação’ é utilizada para justificar o injustificável, contando com a ‘cumplicidade’ de alguns especialistas.

No início do jogo, há um penálti por assinalar sobre Jovane após rasteira de João Aurélio, o árbitro nada assinala e o VAR ignora a situação. Erro apontado pelos especialistas. Halliche é expulso por destruir uma clara oportunidade de golo, o defesa perde a bola e, na tentativa de recuperá-la, impede a progressão do adversário, existindo posteriormente uma troca de braços entre os jogadores. Árbitro assinala, o VAR valida. Erro apontado por alguns especialistas, justificando que o atacante agarra.

No final do jogo, uma camisola é bem agarrada e esticada dentro da área. O árbitro nada assinala, o VAR alerta para penálti e, após ver as imagens, o árbitro insiste em não punir o óbvio. Especialistas que até já tinham interpretado uma falta atacante na expulsão de Halliche, desta vez com a camisola visivelmente agarrada e esticada, defendem a decisão final do árbitro!

Texto de Marco Ferreira, em Record

publicado às 04:19

É a cabeça que faz o homem

Rui Gomes, em 06.07.20

Descobridores de pérolas que somos, tecemos agora loas a Rúben Amorim com a mesma cega certeza que tínhamos no futuro grandioso de Bruno Lage na Luz. Ignorando, vá lá saber-se porquê, que tudo dando aos audazes, nada o futebol lhes garante.

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Não é preciso ir muito mais longe, basta ver o caso de José Mourinho, o melhor treinador português pelos títulos que conquistou, e que ainda conseguiu um grandioso feito que dificilmente outro técnico lograria: interromper, em Espanha, a hegemonia absoluta do Barcelona, numa altura em que os catalães dispunham daquela que foi, talvez, a mais fabulosa equipa da história do futebol.

Certo é que após o insucesso no Chelsea, Mou foi despedido pelo Manchester United e sofre hoje as consequências de um regresso algo precipitado à ribalta – os "spurs" eram uma opção de alto risco – com o Tottenham a cair para a nona posição na Premier. E a poder ficar mesmo fora da Liga Europa e a complicar muito a vida de um treinador que, aos 57 anos, acumula um capital inigualável de experiência, conhecimento e mediatismo, que chegaria, numa actividade normal, para o manter no topo até à eternidade. Mas o futebol depende de demasiados imponderáveis para que se possa definir um objectivo e ter uma garantia mínima de o poder cumprir.

Rúben Amorim parece dispor de uma consciência da realidade diferente da que exibia o ex-treinador do Benfica, cuja postura misturava a afabilidade com o convencimento de quem viera para ficar. Declarações de Amorim como "é trabalho, sorte e tudo misturado" ou – sobre Lage – "um dia é ele, outro dia serei eu" são sinais de maturidade e sabedoria. E revelam a convicção plena, e nada artificial, que o futebol é o momento e que uma bola que bate na trave ou um erro do VAR podem precipitar uma crise que se abaterá sobre o que Carlos Carvalhal considera "a zona mais frágil" – a cabeça do chefe da equipa, claro.

Permanecendo a dúvida, vivamos então um dia de cada vez. E o de hoje mostra-nos um profissional preparado para liderar, um trabalhador paciente, um estratega sagaz e, especialmente, um hábil "colador de cacos". Amorim começou por pôr a nu uma evidência negada pela insensatez de gestores de aviário: vale mais – muito mais! – recuperar talentos "perdidos", como Jovane Cabral, ou lançar jovens promissores, como Eduardo Quaresma, fontes de receitas futuras, que gastar fortunas com barretes grotescos, como Jesé ou Bolasie. Parece simples? E é, mas houve necessidade de fazer descer de Braga à capital a inteligência capaz de explicar o óbvio aos entendidos zero.

Resta o que há de vir, que será o que for, mas a mentalidade de Rúben Amorim faz-me acreditar no seu êxito. Em Alvalade ou noutro sítio qualquer. Porque é a cabeça que faz o homem.

Um último parágrafo para uma simples pergunta: após 42 jogos em que consegue apenas 13 vitórias, um treinador deixa o clube porque "bate com a porta" ou porque quem lhe pagava o quis ver pelas costas? É isso, leitor, a sua resposta é igual à minha.

Texto de Alexandre Pais, em Record

publicado às 02:18

A vida difícil do leão

Rui Gomes, em 05.07.20

21312452_L0T3b.pngAs mais recentes vitórias são um bálsamo para os sportinguistas após boa parte da época ter-se revelado muito penosa. O despedimento prematuro de Keizer e a aposta a destempo em Silas passaram uma factura desportiva grande. A chegada de Rúben Amorim, por muito que sejam criticáveis os 10 milhões pagos pelo jovem técnico, trouxe uma lufada de ar fresco a Alvalade. Tanto desportivamente, com a série de vitórias assinalável, como no discurso.

Mas a estrutura leonina, no caso Frederico Varandas, Hugo Viana e Amorim, entende que o plantel de momento à disposição – e que tão boa conta está agora a dar do recado, diga-se – não vai chegar para as encomendas. E para a exigência. Em Alvalade não resistem a dizer que vão lutar pelo título, por muito que se olhe para a realidade e ela diga que o recato nas palavras era mais aconselhável. Tanto presidente como técnico sabem que a pressão, o público nas bancadas hostis e uma época carregada de datas não se faz só com miúdos, por muito que a fé neles depositada seja real.

É vital que cheguem reforços de qualidade. Como fazê-lo sem dinheiro é complicadíssimo. Mas a verdade é que a argúcia de Varandas, Viana e Zenha será determinante para o futuro de Amorim. Sem ovos não há omeletas, por genial que seja o chef.

Texto de Bernardo Ribeiro, Director de Record

publicado às 02:17

A intensidade de trabalho continua

Rui Gomes, em 23.06.20

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"Frederico Varandas explicitou, durante a pausa do campeonato, os princípios gerais da política desportiva do Sporting para os próximos anos e, pelo menos para já, tudo está a correr conforme o planeado. A aposta na formação é um facto, mesmo que tal implique a ausência do pódio da Liga no final da temporada.

Rúben Amorim lançou, num curtíssimo período, Eduardo Quaresma, Nuno Mendes e Matheus Nunes, recuperou "o goleador" Jovane Cabral, viu Gonzalo Plata beneficiar da lesão de Luciano Vietto e chamou com vincada regularidade mais um punhado de jovens ao trabalho com a equipa principal. Num ápice os miúdos valorizaram e foram (ou estão a ser) renovados os contratos com vários deles.

A estratégia foi clara desde o início. Há que aproveitar o trabalho de Alcochete para, numa primeira fase, obter algum rendimento desportivo destes jovens, transferi-los mais tarde e ir ganhando pujança financeira, diminuindo o fosso para os rivais.

E os astros parecem estar a ajudar, ainda antes de o ‘novo’ Sporting dar frutos. Matheus Pereira ‘pagou’ Rúben Amorim, sem que fosse necessário aguardar pelo crescimento do outro Matheus, o Nunes. Agora, é o RB Leipzig que pisca o olho a Plata. A conjuntura é favorável".

Luís Pedro Sousa, Chefe de Redacção de Record

publicado às 16:40

Custos da pandemia

Rui Gomes, em 21.06.20

21312452_L0T3b.pngO período que atravessamos tem tido custos vários e enormes para a economia nos mais variados sectores do País. Por muitos milhões que nos digam que chegam da Europa, a verdade é que na vida real o impacto positivo está ainda muito longe de ser sentido. E todos conhecemos vários casos de desemprego, de famílias em situação precária, de pessoas cujos negócios sofreram rombos brutais ou outros que ainda nem sequer voltaram à actividade. Os clubes não são diferentes. Aliás, é por isso que se está a jogar sem público nos estádios. Se o sal do futebol são os golos, os adeptos são a pimenta e este jogo a que hoje temos direito é melhor do que nada, mas sensaborão sem as muitas pessoas que o amam poderem sentar-se nas bancadas.

O empréstimo obrigacionista lançado pelo Benfica mostra como mesmo os emblemas que se dizem mais preparados e apresentam as contas mais sólidas precisam de ajuda. A falta de liquidez a isso obriga. O FC Porto também pediu um empréstimo bancário para pagar salários e o Sporting terá adiantado parte da verba de Bruno Fernandes.

Cada um combate a crise à sua maneira mas ninguém escapa às dificuldades. Porque estes tempos de pandemia são mesmo duros. E se os grandes estão assim, imaginem os outros. A luta continua mas a vida não está fácil. Não está mesmo.

Artigo de Bernardo Ribeiro, Director de Record

publicado às 15:46

Pensar 'fora da caixa'

Rui Gomes, em 17.06.20

img_192x192$2015_10_20_12_03_36_1006065_im_6366770Quando se cavaqueia sobre as escolhas ditas arrojadas de Rúben Amorim, sejam elas o sistema e o modelo de jogo ou o baptismo de jovens mancebos, as opiniões maioritárias da praça vão muito no sentido de o treinador do Sporting CP estar já a preparar a próxima época. Mas, sem nunca ter privado com o jovem técnico, arrisco dizer que o arrojo que sobressai das suas recém-escolhas tem principalmente a ver com o seu temperamento. E, claro, com a firmeza e a rebeldia higiénicas que se descobrem nas suas concepções futebolísticas.

Desconheço se estes traços de carácter e convicções contribuíram para que Frederico Varandas e Hugo Viana se tenham enfeitiçado por um treinador que, na altura, só tinha 13 jogos (e dez vitórias) no futebol profissional. Mas terá de ter sido algo do género, mais transcendental e metafisico, a fazer com que o grupo de responsáveis leoninos arriscassem satisfazer a cobiça do sempre pragmático António Salvador.

De facto, quando o Sporting aceitou pagar dez milhões de euros ao SC Braga (a terceira verba mais alta alguma vez paga no mundo inteiro por um treinador) não o fez certamente por confiar no currículo (Amorim acabara de ganhar uma Taça da Liga) ou na experiência de quem conta apenas 35 anos de idade e começara a actual época à frente da equipa B bracarense. O que Frederico Varandas e Hugo Viana terão entrevisto em Amorim foi a forma desassombrada como ele pensa e age "fora da caixa".

E, se de facto foi isso, até faz algum sentido, porque muitos dos treinadores que marcaram de forma indelével o futebol, em Portugal e por esse mundo fora, tinham em comum essa tendência para se exporem e ousarem. Churchill dizia que a coragem é a primeira virtude do estadista, porque, sem ela, todas a outras virtudes desaparecem na hora do perigo. Nisso, o futebol não difere muito da política e ter um treinador descarado e tenaz acaba, muitas vezes, por ser uma grande vantagem.

Amorim foi, provavelmente, o treinador menos atrapalhado pela paragem da liga. A "pré-época" a meio da temporada também criou transtornos ao Sporting, mas o seu treinador teve o tempo necessário (que nunca teria em condições normais) para passar as suas ideias. O Sporting ainda não apresenta o futebol exuberante que Amorim ofereceu em muitos jogos do Braga – o que pode ser explicado por várias vicissitudes, desde logo o maior traquejo e superior oferta do plantel bracarense. Mas, os jogos com o V. Guimarães e com o Paços de Ferreira já permitiram confirmar não só uma melhoria progressiva, mas também que a evolução assenta em ideias inegociáveis e alicerçadas na qualidade do treino.

A exemplo do que fez em Braga, Amorim pretende que o Sporting seja uma equipa sempre equilibrada, com uma defesa poderosa e um ataque variado e cortante. Tudo assente num 3x4x3, que se transforma em 5x4x1 em organização defensiva. Os alas (Jovane e Vietto) funcionam como Salah e Mané no Liverpool: jogam muito por dentro, para surgirem no apoio a Sporar e para permitirem a projecção dos laterais. Esse posicionamento mais interior favorece as transições ofensivas, um dos tópicos em que o Sporting já se revela agressivo e consistente.

Claro que é bastante cedo para tirar grandes conclusões. Mas há escolhas de Amorim que denunciam a grande vontade de jogar um futebol dominador e autoritário. Viu-se isso quando escolheu Wendel para fazer o papel que costuma pertencer ao lesionado Battaglia ou quando deixou de fora Ristovski e Rosier e preferiu dar a lateral direita a um jogador (Rafael Camacho) com mais argumentos na construção ofensiva.

A lesão de Vietto acabou por ser uma grande contrariedade. É uma das peças mais difíceis de substituir. Não só por ser um jogador tecnicamente sobredotado e muito inteligente nas movimentações (sabe pousar o jogo quando é preciso), mas também por já ter a tarimba que se nota faltar a muitos dos seus companheiros.

Artigo da autoria de Bruno Prata, em Record

publicado às 03:48

Amorim ganha pontos

Rui Gomes, em 14.06.20

21312452_L0T3b.pngO Sporting não fez uma grande exibição, longe disso, mas ganhou. E com a vitória recuperou dois pontos ao Benfica, três ao Sp. Braga e recuperou a distância para o Famalicão, algo muito importante na vida leonina. Rúben carrega um peso enorme pelos 10 milhões gastos por Varandas, mas esse é um tema que parece não o preocupar. E a verdade é que se olha para equipa e ali há novidades.

Primeiro a coragem de apostar nos jovens: Já havia Max na baliza, agora há Eduardo Quaresma no centro da defesa, Camacho no corredor direito, Matheus Nunes no miolo e Jovane na ala. Pode não ganhar sempre como disse que queria fazer, mas entende-se que já trabalha o futuro. E soma pontos.

Amorim não olha a nomes. Mathieu na bancada é um sinal claro de que vai ter pouca pachorra para vacas sagradas. O Sporting precisa, de facto, que jogue apenas quem esteja disponível para dar tudo. O francês é inequivocamente um dos melhores jogadores do plantel, mas concordo com o técnico quando diz que "não vai pedir" a ninguém para ficar no Sporting. Ou se sente em condições e assina ou o leão precisa de um novo patrão.

As tarjas em Alcochete foram uma imbecilidade. Não por serem criminosas. Mas Alcochete terminou há 15 dias. Pressão nos miúdos? Já?

Bernardo Ribeiro, Director de Record

publicado às 04:02

A mão que embala o berço

Rui Gomes, em 08.06.20

img_192x192$2015_10_12_15_23_37_1005745_im_6366770Juiz algum responsabilizará um dia Donald Trump pelos crimes de ódio que se multiplicaram nos Estados Unidos desde a sua eleição e que atingem hoje proporções irracionais. Como em Portugal jamais se provará numa sala de tribunal – e confirmámo-lo não há muito tempo – a relação íntima que possa existir entre a palavra incendiária do intelectual hábil e a mão criminosa do bandido estúpido.

Vou repetir-me. Se vivemos num país em que há, e dou apenas exemplos, jornalistas que deturpam a verdade, polícias que assaltam e roubam, autarcas que são corrompidos e até juízes capazes de desonrar uma classe que é o último bastião de defesa da probidade e da decência, que mais se pode esperar do que encontrar também delinquentes no meio das pessoas de bem que integram as claques de futebol?

O grande problema é que as pessoas de bem não são muito úteis às direcções dos clubes, ao contrário dos delinquentes da maioria das claques, que se deixam instrumentalizar em troca de bilhetes, viagens ou arrecadações para bebidas e outros produtos, sendo depois transformados por quem os comanda em reais guardas pretorianas – um eufemismo para associações criminosas.

São dessas mentes deveras manipuladas as mãos armadas que ajudam a ganhar eleições, condicionam fisicamente os opositores – reais ou supostos – em assembleias gerais, ameaçam treinadores e jogadores que se querem ver partir, apedrejam carros e casas de árbitros, agridem e tentam matar, e matam, adeptos adversários – até ao dia em que, sem código algum de conduta que não seja o da própria marginalidade, se voltam mesmo contra aqueles que eram objecto do seu "amor" e da sua "protecção", como sucedeu com o atentado ao autocarro do Benfica. Que têm então a ver com isso as direcções dos clubes? 

Nessa fase, obviamente, já nada, o que não nos impede de sublinhar a realidade: lamúrias, repúdios veementes, indignações dúbias ou exigências de "punições exemplares" não são mais – ainda uma vez e sempre – do que meras tentativas de tapar o sol com a peneira e alijar responsabilidades. Sim, os senhores são os verdadeiros culpados pela violência que envolve o desporto em Portugal. É vossa a mão que embala o berço.

Alexandre Pais, em Record

publicado às 04:03

E lá se vai o "exemplo português"

Rui Gomes, em 01.06.20

img_192x192$2015_10_12_15_23_37_1005745_im_6366770

(...) Entretanto, prosseguem as usuais cenas rocambolescas na feira de vaidades do futebol português, com as divergências saloias entre os clubes, o sai ou fica de Proença, a saga da aprovação dos estádios – que a DGS queria que fossem o "mínimo possível" mas que se pôs a validar e chegou aos 17! – ou a recém-novela da ratificação das cinco substituições por jogo, a "decidir" em assembleia geral... já após o reinício do campeonato. Que coisa ridícula.

Tenhamos calma, trata-se de fogo fátuo. A partir de quarta-feira, o que estará em todas as notícias e o que aquecerá os debates recuperados da Covid-19 é o cartão que ficou por mostrar, o segundo amarelo excessivo, o vermelho que não saiu do bolso, a falta para penálti que o árbitro não viu e o VAR também não, a falta para penálti que o árbitro marcou e o VAR anulou, a falta discutível para penálti que o árbitro não assinalou e o VAR corrigiu...

E por aí fora, numa lista infindável de casos, casinhos e afins, intensidades e centímetros, polémicas e acusações. É esse, afinal, o nosso planeta do pontapé na bola, ora agitado pelo tempero do pontinho de avanço do clube errado. O espectáculo está garantido.

Excerto da crónica semanal de Alexandre Pais em Record

publicado às 06:01

Vão assobiar para o lado?

Rui Gomes, em 28.05.20

21312452_L0T3b.pngEnquanto os jogadores arriscam a saúde das suas famílias para que a retoma do futebol seja uma realidade e mascare a gestão desastrosa de uma grande parte dos dirigentes portugueses, eis que um grupo de criminosos que se esconde e legitima nas claques continua a fazer sangue sem que nada aconteça. Da polícia aos presidentes dos clubes, passando pelas instituições que regem o futebol, esta é uma boa oportunidade para separar o trigo do joio e limpar as bancadas de uma escumalha que não pertence ali.

É óbvio que há gente boa nos grupos organizados. Miúdos que vibram com o futebol e que no meio das massas fazem algumas parvoíces. Mas não é desses que falo. É destes que esfaqueiam, matam, perseguem e são quase sempre os mesmos. Não está na altura de varrer esta gente do jogo que amamos e que eles apenas conspurcam?

Frederico Varandas tomou uma posição corajosa em relação às claques e que lhe custou manifestações, ataques, ameaças e quejandos. Vieira há uns anos preferiu dizer que não sabia que existiam claques na Luz. Já que têm falado ultimamente, não estaria na altura de os três líderes dos grandes fazerem algo em conjunto a estes grupos onde se escondem os criminosos? Sei que é preciso coragem, dá chatices e não rende votos. Mas o futebol agradecia.

Artigo de Bernardo Ribeiro, Director de Record

publicado às 03:48

Terá Pedro Proença sete vidas?

Rui Gomes, em 22.05.20

21312452_L0T3b.pngA paz podre que se vive no futebol há algum tempo pode estar a quebrar. São muitos, demasiados até, os que pedem a cabeça de Pedro Proença. O presidente da Liga dificilmente cairá hoje (ontem), a não ser que peça a demissão, mas o isolamento é real e os maus-tratos e a guerra não vão parar. Parece condenado a viver como ‘rainha de Inglaterra’ até à próxima assembleia geral ou quando os verdadeiros poderosos lhe decidam cortar a cabeça.

Terá Proença sete vidas? É uma das questões que se coloca a partir de hoje, se o ex-árbitro não pedir para sair. E não acredito que o faça. Mas a manter-se, não estará na altura de falar? Mas a sério. Sem paninhos quentes. Denunciando as manobras de bastidores que sabe existirem para cortar-lhe a cabeça mais cedo ou mais tarde. A Liga sofre de um problema de percepção gritante. E de liderança ainda mais.

Os operadores estão muito zangados com Proença. Os três grandes também. Vários clubes engrossam o movimento de insatisfeitos. E Fernando Gomes junta-se ao clube. Como diz a manchete, o caos voltou. No fundo, é o espelho do futebol nacional. Onde os clubes olham apenas e tão só para o umbigo e necessidades de momento. Sinónimo de vergonha? O comportamento do Marítimo, por exemplo. É o que temos.

Bernardo Ribeiro, Director de Record

Nota: Entretanto, numa reunião de presidentes realizada esta quinta-feira, Pedro Proença colocou à disposição o seu lugar de presidente da Liga Portugal. A 9 de Junho haverá uma Assembleia Geral para se decidir o futuro do líder do organismo.

Benfica e FC Porto lideram um movimento de constestação ao actual presidente. A carta enviada a Marcelo Rebelo de Sousa – à revelia de todos os clubes (inclusive aos que fazem parte da Direcção da Liga) e dos operadores televisivos –, a solicitar uma audiência para discutir a possibilidade de as dez últimas jornadas serem transmitidas em canal aberto, foi a gota de água numa relação já agastada por vários acontecimentos recentes.

publicado às 04:48

O futebol avança

Rui Gomes, em 14.05.20

21312452_L0T3b.pngReunião a reunião, conversa a conversa, o futebol avança. Trôpego, mas não cai. Com muitos a quererem fazer-lhe mal, mas resistindo. Bom saber que a competência ainda triunfa sobre a maledicência. Melhor ainda, que os que puxam para a frente vão sendo mais fortes do que aqueles que empurram para trás. Só com equipas fortes e competentes se pode resistir. O futebol felizmente ainda vai tendo algumas. Acredito, quero acreditar, que esta aventura vai chegar a bom porto.

FC Porto e Benfica devem decidir o título no campo. É aí que se encontram vencedores e dignos vencidos. Mesmo que se esta época as regras mudaram a meio e o 12.º jogador, esse bem tão importante no futebol, não vai poder ajudar a cor dos seus sonhos. Nem os estádios vão ser os que os jogadores pisam dia após dia. Mas nada será igual, pois não? E não merecem aqueles que estão impedidos de regressar ao trabalho de ter este pequeno escape tão importante na sociedade actual? Ver novamente os heróis na relva vai fazer bem a todos nós.

No meio de toda esta crise, a Liga portuguesa pode lucrar muito com este regresso a 4 de Junho. Afinal, tirando Coreia do Sul e Alemanha, será o futebol português que estará nas TV’s de espanhóis, ingleses, franceses... Já pensaram bem nisto?

Bernardo Ribeiro, Director de Record

publicado às 04:03

img_192x192$2020_05_11_16_42_27_1697973.jpgNo Sporting, todos queremos o mesmo: vencer. E parecemos concordar no que é necessário para vencer: união, qualidade de gestão, uma aposta forte na formação complementada por um scouting de qualidade, tudo isto enquanto preservamos o ecletismo que é a marca do Clube. Sendo isto bem claro, por que razão não vencemos nem sequer estamos unidos? Porque discordamos sobre como conseguir o necessário e porque já nem sequer conseguimos concordar na forma de o discutir. É isto que está a montante das condições que permitem o sucesso. Tem tudo a ver com o modelo de governo do Clube e a cultura que nele prevalece.

Em vez de repetir lugares comuns, que escondem as decisões importantes e difíceis, vou expor porque defendo um modelo de governo diferente para o clube. Infelizmente, as últimas eleições foram uma oportunidade perdida. Paradoxalmente, o risco existencial da atual crise para o clube pode ser a oportunidade para nos unirmos em torno de um modelo diferente.

O grave impacto da pandemia será particularmente negativo para o futebol profissional. Assistiremos a quedas muito significativas nas principais fontes de receita: bilheteira e ‘match day revenues’, direitos televisivos, publicidade e ‘vendas’ de activos. Isto colocará significativamente em causa a sustentabilidade financeira dos clubes e agravará, ainda mais, o diferencial competitivo (entre clubes e ligas) e os riscos para a integridade das competições (nomeadamente, com a entrada de capitais de fidelidade duvidosa). Mas também podemos usar esta crise como uma oportunidade única para reflectir sobre estes problemas e procurar perceber como realmente os corrigir. Começando no nosso Clube, mas com uma estratégia para todo o futebol português.

1 – Mudar o governo do Clube para mudar a SAD. Todos falam da importância de uma gestão profissional mas muito poucos são consequentes com isso. Qual é a probabilidade de encontrar nos associados do nosso Clube uma equipa altamente profissional de gestão desportiva? Nós somos apaixonados do Clube mas poucos são profissionais de gestão desportiva. Não faz sentido restringir o nosso campo de recrutamento dessa forma. E não podemos achar de forma alguma que temos uma gestão profissional só porque pagamos de forma profissional a um grupo de associados que se põe a gerir a SAD... É um equivoco tratar as eleições para o Clube como um processo de selecção da gestão da SAD. Devem ser eleições para escolher quem melhor representa os associados na escolha da gestão da SAD (e no clube, onde isso também seja necessário). Desta forma alargamos substancialmente o campo de recrutamento para escolher os melhores (nacionais ou estrangeiros).

E com outra enorme vantagem. A concentração de poderes (na figura do presidente) que o actual modelo promove, limita muito radical e fortemente os instrumentos de escrutínio, responsabilização e controle de poder. Dá-se o poder absoluto a alguém durante o seu mandato. Isto nunca conduz a bons resultados. É verdade que outros têm tido vitórias com modelos semelhantes, mas com duas características: a criação de cultos de personalidade, independentemente do que faça para vencer; a eternização no poder e a perda de controle sobre o que se passa dentro do clube. Na prática, teme-se a venda do clube mas, depois, dá-se de graça a alguns para porem e disporem...

O modelo que defendo não só permite como exige a criação adicional de um conjunto de princípios de bom governo interno: limitação de mandatos; controles de integridade para os titulares dos órgãos sociais e gestores da SAD; declaração de interesses e de património e estrito controle dos conflitos de interesse; código de conduta para dirigentes, atletas e funcionários do Clube; promoção de transparência total, desde a situação financeira e contratações de jogadores aos concursos para funcionários e prestações de serviços; uma unidade de compliance e uma comissão independente de ética no clube que monitorize estas diferentes dimensões (separando as funções do Conselho Fiscal e Disciplinar).

Esta cultura de bom governo interno e de forte escrutínio e responsabilização de gestão é o que conduzirá à escolha dos melhores profissionais na gestão desportiva e à adopção dos melhores processos de decisão, e ainda com efeitos transversais. É necessária a melhor experiência dentro e fora do estádio: das vitórias à qualidade do futebol; do que vemos no campo à experiência vista no exterior; do futebol às modalidades; do sucesso de hoje à antecipação das tendências futuras. Tudo está relacionado. Num clube com a cultura certa de gestão estas diferentes dimensões são não apenas necessárias como se alimentam mutuamente. É essa cultura que temos de promover.

2 – Unir o Clube respeitando a sua bem vincada diversidade. Esta alteração da cultura de governo constitui também uma excelente oportunidade para a sua união. Se passarmos a escolher quem realmente nos possa representar em vez de escolhermos um qualquer ‘Imperador’ , retiramos boa parte dos incentivos perversos que fracturam constantemente o Clube. Nas últimas eleições defendi, sem grande sucesso, a necessidade de uma direcção agregadora de diferentes sensibilidades.

O Clube não sai da crise no actual clima de guerra civil. Esta semana tivemos um debate de qualidade entre Tomás Froes e Samuel Almeida nas páginas deste jornal. Eu estou mais de acordo com o Samuel, mas reconheço que ambos querem o melhor para o Sporting. Temos de debater civilizadamente e tirar partido da paixão e competências de todos.

Abraham Lincoln, presidente norte-americano durante a guerra civil, escolheu para a sua administração não outros como ele mas sim os seus rivais. Sabia que para conduzir o país durante a guerra civil era fundamental ter a seu lado essas diferentes personalidades. Só isso oferecia a base de apoio e autoridade de que o país precisava em tal contexto.

Nunca será possível juntar todos... mas devíamos juntar a vasta maioria. É fundamental para o que o Sporting precisa. Para isso, temos de retirar o ‘Santo Graal’ do poder absoluto à presidência. Quem for eleito deve antes moderar várias sensibilidades numa proposta aos sócios de um modelo de gestão profissional e na escolha dos gestores que o irão implementar. Não precisamos de mais dirigentes arrogantes, mas sim de quem conheça os limites do que sabe. Não precisamos de quem queira mandar na SAD, mas de quem esteja disposto a representar os sportinguistas na escolha dos profissionais que a irão gerir.

Um Clube com esta forma de governo e esta cultura é o que desejo para o futuro. Só este clube, e com a autoridade decorrente destas reformas, estará em condições de liderar a também tão necessária reforma do futebol português.

Miguel Poiares Maduro, em Record

Nota: Este artigo mais parece um discurso de candidatura, mas não só não conheço a pessoa o suficiente para o afirmar, como também tenho uma vaga ideia que Miguel Poiares Maduro já fez saber noutras ocasiões públicas que não alimenta essa ambição.

Isto dito, subscrevo genericamente muitas das considerações. Acho que o todo da sua ideia teria maior impacte abreviando a apresentação e focando as questões mais essenciais.

publicado às 03:48

As balelas da degola

Rui Gomes, em 10.05.20

img_192x192$2019_09_07_00_18_48_1598529.jpgEmbora pareça, o futebol profissional em Portugal não se reduz nem às aspirações, nem às expectativas, nem aos objectivos do Benfica, FC Porto e Sporting. E enquanto isso não for assumido pela FPF e pela Liga, fica mais difícil diminuir o impacto dessa macrocefalia e, com essa redução, tornar o futebol português mais equilibrado e também mais democrático.

O futebol profissional, em Portugal, reflecte um mapa competitivo assimétrico e as recém-decisões relacionadas com a crise pandémica, que envolveram Governo, FPF e Liga, demonstraram o mais puro desprezo pelos clubes pequenos, quer os do campeonato de Portugal, quer os da 2.ª Liga.

As injustiças obedeceram a dois tipos de ditadura:

1) A ditadura das várias operadoras de telecomunicações, a defenderem escrupulosamente todos os seus interesses, uma vez que se tornaram nos principais ventiladores do futebol profissional;

2) A ditadura dos três principais emblemas nacionais, que pressionaram o Governo até ao tutano, os únicos a terem assento personalizado na reunião com o primeiro-ministro e com outros membros do executivo, o que desde logo correspondeu à assumpção, até orgulhosa, de uma discriminação difícil de aceitar.

Se quisermos utilizar uma linguagem prosaica, a NOS, a Altice e a Vodafone disseram sem sofismas: meus amigos, façam lá como quiserem, ponham a máscara ou tirem a máscara, metam ou não desinfectante nas mãos, nas bolas e nas chuteiras, arranjem ou não estádios que tenham balneários suficientes para lá meter os jogadores que vão a jogo, arranjem ou não autocarros suficientes para os fazer deslocar, com ou sem viseira, façam lá como quiserem, mas joguem, acabem lá o campeonato, porque nós não podemos andar aqui a meter o dinheirinho e a ver a banda (não) passar...

Só faltou dizer: pela vossa (e nossa) saudinha, façam isso, porque os milhões não caem do céu e até o céu já não é tão confiável como era antes. ‘Business is business’ e não é a jogar PlayStation que NOS (e os outros) podemos garantir os V. ordenados.

Os ‘grandes’ do futebol português, extraordinariamente sintonizados nesta matéria, por necessidade, mas também porque há títulos em jogo, não deixam qualquer margem de manobra seja a quem for, e sentem a fragilidade do poder político, qualquer coisa assim a modos que ancestral, velha e relha, como se fosse uma regra constitucional. Que não é, sublinhe-se bem.

Com o fim do estado de emergência, mas ainda assim a entrarmos no corredor do estado de catástrofe, a malta - perdoe-se-me a expressão - desconfina-se, e se a malta é atirada para o desconfinamento, numa exposição generosa e simpática ao vírus, por que razão o futebol não se deve também desconfinar e mostrar alguma simpatia ao vírus, que até é bonzinho, na visão de muitos especialistas?

De resto, o presidente do Sporting, Frederico Varandas, único médico entre presidentes dos ‘grandes’, é um grande entusiasta no processo de conquista da imunidade e disso deu conta a António Costa e aos governantes na célebre reunião em que o presidente da Liga esteve quase para não entrar (!), entusiasmo esse acompanhado por imperativos e exigências de natureza financeira.

Varandas sabe que a pandemia apenas veio acelerar e denunciar as más práticas de gestão e os desequilíbrios na distribuição de receitas.

Este claro halo de pré-falência, numa indústria que faz movimentar milhões de euros, é arrepiante, e o discurso de Frederico Varandas, neste tempo de Covid, mostra bem que o actual ‘modelo de negócio’ está esgotado, porque não promove qualquer tipo de saúde financeira.

A propósito, não creio que o facto tenha sido público, mas na reunião de direcção da Liga durante a qual ficou decidida a despromoção do Cova da Piedade e do Casa Pia, impedidos de lutar em campo pela manutenção no escalão secundário, o presidente Pedro Proença, sempre num tom agitado e bastante audível, afirmou que "se a Liga NOS não acontecer, não é a Liga que entra em insolvência; é o futebol português que entra em insolvência. Não tenham dúvidas disto!"

Pedro Proença afirmou, inclusive, que se não houver retoma do campeonato, e com o futebol "no limite das nossas capacidades", não via outro cenário senão "uma intervenção estatal", com "injecção de capital".

Tudo enquadrado naquilo que apelidou, financeiramente, de "esforço brutal" (repetiu o adjectivo ‘brutal’ várias vezes) nas medidas de ajuda-Covid aos clubes da LigaPro e num ambiente evidente em que "ninguém se consegue financiar", chamando a atenção para o comportamento pós-troika da Banca em relação ao futebol.

Quer dizer: o que resta do principal campeonato tem de se realizar, dê lá por onde der, porque é a única forma de as operadoras bombarem ‘oxigénio’ nas tubagens dos clubes profissionais…

Este óbvio reconhecimento de pré-falência e a autodenúncia de que o futebol não é auto-suficiente, levou, no entanto, a que a FPF e a Liga impusessem "critérios desportivos" de promoção e despromoção que são um atentado à integridade e à respeitabilidade dos clubes.

A Federação não conseguiu ser coerente (ou havia promoções/despromoções em todas as situações ou não havia para todos) e a Liga também não conseguiu dissuadir o Governo de promover uma clara discriminação no futebol profissional entre o primeiro e o segundo escalões.

O que aconteceu no Campeonato de Portugal é uma aberração. Nunca vi, em nenhuma prova nacional ou internacional, quando estão em causa apuramentos resultantes de desfechos em séries diferentes, premiar-se as equipas que tenham somado mais pontos, no conjunto, ao fim de um ciclo de prova.

O que se fez ao Praiense, de Angra do Heroísmo, é uma coisa que não se faz a ninguém. Confundir pontuações em séries diferentes não é uma coisa séria. E deixar para trás uma equipa que liderava a série e tinha 11 pontos de vantagem e menos derrotas do que as equipas promovidas, não se pode deixar de considerar como um dos maiores atentados à verdade desportiva na história do futebol português.

E precisamente por isso não posso aceitar que a Covid-19 sirva para proteger os poderosos em detrimento dos mais fracos. Isto não é justiça (a crise pandémica não justifica tudo) e, por isso, não quero deixar de me associar à revolta sentida pelo Praiense, Olhanense, Real Massamá, Fafe, Lusitânia de Lourosa, Benfica e Castelo Branco, mas também pelo Cova da Piedade e Casa Pia.

A hipocrisia dos fundos de compensação e a simples ideia de alguém ter pensado em retaliar perante eventuais impugnações, numa chantagem inadmissível, diz bem como é possível manobrar o futebol português em nome dos interesses maiores. Não venham é fazer-se de sonsos e fingir que, assim, se protege a verdade desportiva. Balelas!

Rui Santos, jornal Record

publicado às 04:02

Ter um pouco de calma?

Rui Gomes, em 07.05.20

21312452_L0T3b.pngTodos percebemos a alegria de quem sobe, a tristeza de quem desce, a amargura de quem não joga mais. Também já percebemos que foi a Federação a real locomotiva do processo que levou ao regresso da esperança no futebol. A Liga tinha bloqueado em processos em que parece ter querido agradar a demasiados, travando com isso decisões estruturais que eram imprescindíveis.

Entendemos por tudo o que se tem passado as muitas palavras de revolta soltas por alguns agentes. E que haja clubes zangados com Pedro Proença, seja pela condução deficiente do processo em alguns momentos, seja por reuniões que claramente lhe correram mal. Mas também talvez seja altura de os clubes perceberem que fazem parte do problema. E que o modelo de governação da Liga é hoje impossível de levar ao sucesso. Porque obriga o presidente a constantes equilíbrios e alianças e não à aplicação de uma política para o futebol digna desse nome. Por muito que Proença se tenha espalhado ao comprido nos últimos tempos, acredito que é bem-intencionado.

Para levar a retoma até ao fim com sucesso é necessário bom senso de todos. E querer um futebol como até aqui é um erro com custos... incalculáveis. Por exemplo, manter a Allianz Cup. Será mesmo possível?

Bernardo Ribeiro, Director de Record

publicado às 06:02

Os d€us€s €stão loucos

Rui Gomes, em 04.05.20

img_192x192$2019_09_07_00_18_48_1598529.jpgNunca, em nenhum momento, o nosso Governo admitiu ir contra as pretensões dos três ‘grandes’ do futebol português, que cedo se manifestaram unidos no objectivo de verem o campeonato ser concluído. E, neste particular, nem a FPF (Fernando Gomes) nem a Liga (Pedro Proença) alguma vez orientaram as suas decisões no sentido da não conclusão da Primeira Liga, pelo que o objectivo fundamental foi sempre terminar o que restava da temporada futebolística ao nível da competição principal, mesmo que isso significasse hipotecar todo o restante desporto de competição, no futebol e nas modalidades de pavilhão.

Esta decisão do Governo tem muito que se lhe diga e, em tempo de poucas certezas, com António Costa a sublinhar que não terá vergonha se for obrigado a dar dois passos atrás, é muito injusta para a globalidade dos anseios do ‘movimento associativo’; é altamente discriminatória (quem salva a II Liga?) e pouco respeitosa para a maioria dos clubes do quadro profissional e visa manter a ‘cúpula do futebol’ ligada à máquina e ao ventilador central das operadoras de telecomunicações.

E ninguém parece querer ver o essencial: estar parado é mau (defendi desde a primeira hora que a FIFA deveria responsabilizar-se pelo financiamento deste tempo de paragem, com fundos constituídos para o efeito), mas o reatamento em curso produz altíssimos riscos não apenas no âmbito do super-complexo controlo sanitário, mas também em termos da salvaguarda da verdade desportiva.

O terreno está todo minado e rapidamente a primeira mina rebentará debaixo dos pés de alguém. Basta um teste positivo para poder colocar uma equipa em quarentena. Basta um resultado desportivo negativo do Benfica ou do FC Porto para termos uma discussão sem precedentes. E se a competição tiver de parar, novamente?

Os deuses devem estar loucos.

O problema é que a retoma da competição - nos termos em que se perfila - não vai salvar ninguém, a não ser que se tomem medidas estruturais de redimensionamento da indústria (global) do futebol.

Excerto da crónica de Rui Santos em Record.

publicado às 07:03

Marcas que ficam

Rui Gomes, em 25.04.20

img_920x518$2020_03_03_16_47_36_1670867.jpg

A extensa reportagem que o The New York Times dedica às ligações entre o Benfica e o sistema judicial tem pouca informação nova e praticamente tudo o que lá está escrito já tinha sido divulgado pelos meios de comunicação social do nosso país.

Porém, não deixa de ser relevante. Porque o suposto domínio do clube da Luz sobre os juízes deixou de ser conversa de café ou debate televisivo dos nossos serões e passou a ser discutido em inglês e logo num dos meios mais prestigiados do Mundo, ajudando de alguma forma a validar a opinião de quem acha que há coisas que não batem certo.

Da mesma forma que o Benfica sente-se orgulhoso quando a academia do Seixal é alvo de reportagens elogiosas por meios reconhecidos internacionalmente, também agora devia preocupar-se com notícias tão prejudiciais para a imagem da instituição. São marcas que demoram a passar.

Sérgio Krithinas, Director Adjunto de Record

publicado às 02:32

Casos que dão que pensar

Rui Gomes, em 23.04.20

21312452_L0T3b.png

A UEFA tem vindo a dar vários bons exemplos de responsabilidade na gestão da crise do futebol. Assumiu enormes custos económicos para que as ligas profissionais consigam manter a cadeia de valor em que o desporto-rei está assente. Mas não há milagres. Por muito que Ceferin e quem o aconselha puxe pela cabeça para encontrar soluções, as ligas têm de ter todos os cenários previstos.

Refira-se que em Portugal a FPF tem tido também um comportamento bem superior ao que temos visto noutras paragens. E a Liga de Clubes tem tentado. Mas as guerras entre emblemas não ajudam a que se faça um trabalho isento de erros. A afirmação definitiva de Proença passa muito pela forma como sair da crise. E da relação que conseguir manter com a federação. É com estas duas instituições que o futebol português poderá salvar-se. Se estão à espera que sejam os clubes profissionais a apontar o caminho, esqueçam. É cada um por si.

O juiz fanático de Rui Pinto pediu escusa. Pena ter sido só depois de tornado público o comportamento que tinha nas redes sociais no tema que se prepara para julgar. Pior, não o assume no pedido de escusa. Depois do escândalo na Relação, é assustador aquilo a que assistimos na Justiça. E é este homem que está no caso e-Toupeira. E cheira-me que se vai manter neste processo. Se assim for, prova-se que estamos entregues aos bichos.

Bernardo Ribeiro, Director de Record

publicado às 04:33

img_192x192$2017_01_05_16_18_59_1203503_im_6366916Passou de preso preventivo a preso domiciliário. Tarde e a más horas, tendo em conta múltiplas atrocidades – dos assassinatos à violência doméstica – que nos entram nestes tempos casa dentro. Estar em prisão domiciliária parece-me, do que observo, forma mais leve de estar detido, embora estando numa casa da PJ e vigiado a tempo inteiro… para segurança do próprio Rui Pinto.

Mesmo assim, e sem sequer poder tocar em computadores, abre-se aqui uma janela de oportunidade para que a sociedade fique a saber das verdades que o famoso "hacker" deve ter escondidas, sem deixar de cumprir o castigo que lhe é devido por ter invadido (e surripiado "material") a casa do alheio. Amarrado ao silêncio durante um ano – deu aquela abébia no "Luanda Leaks" – que venha de lá agora o que interessa. Porque isso dá-nos muito jeito, como tantas vezes defendi, mesmo que, como noticia o Expresso, o que está nos discos rígidos não sirva de prova. Mas pode contribuir para que se conheçam muitos dos podres que têm dominado os bastidores, da política à banca, passando pelo Desporto. O ar em Portugal, mais respirável devido à pandemia, merece ficar puro. Doa a quem doer!

José Manuel Freitas, em Record

publicado às 12:45

img_192x192$2019_09_07_00_18_48_1598529.jpg

Se, no que liga Rui Pinto ao futebol - este não é um mero problema de esquerda ou de direita (politicamente falando) - a temática que lhe está subjacente e fundamenta as soluções para o futuro também não é um problema do Benfica ou do FC Porto. É um problema de todos.

A clubitização desta questão é apenas uma tentativa, menor, de passa-culpas. E, mais uma vez, de exploração da emocionalidade e das múltiplas preferências clubísticas que ‘cegam’ os adeptos.

O futebol em Portugal (como noutros países) estava a viver artificialmente e bastou um mês de paragem para haver recursos abusivos ao lay-off, mesmo antes de se tentarem achar soluções bilaterais, com eventual moderação dos sindicatos, no caso dos jogadores.

Os clubes têm de repensar se este modelo de serem apenas, na área financeira, as sedes que gerem exclusivamente a entrada e saída de dinheiro, sem qualquer preocupação em constituir reservas, é, na verdade, o que faz sentido. Esta crise veio provar que não.

O futebol, no seu modelo actual, estava a rebentar pelas costuras, a entrada em vigor do fair-play financeiro foi o grande sinal de que era preciso conter os excessos e, portanto, esta pandemia (a assinalar mais de 100 000 mortes no Mundo) apenas veio acelerar o imperativo de mudança.

Como escrevia aqui há uma semana, não faz sentido que em Portugal se tenham gasto numa época mais de 80M€ em custos de intermediação de transferências.

Os clubes e os seus dirigentes nunca souberam explicar - a FIFA e a UEFA também não - por que razão os intermediários são tão necessários nas operações de transferência.

Defendo há muito um mecanismo completamente diferente que pressupõe mais verdade e transparência nas relações inter-clubes.

A organização global do futebol vai ter mesmo de mudar e esta desgraça da pandemia vai talvez trazer algo de bom no futuro: a substituição das lógicas de antanho e provavelmente a substituição progressiva de velhas mentalidades por uma visão mais despoluída e menos comprometida com esquemas que o Football Leaks já denunciou.

Rui Santos, em Record

publicado às 03:02

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