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Quando os anjos descem à terra

Rui Gomes, em 04.10.17

 

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Para ser sincero, não é que seja um assunto que me incomoda muito, talvez por não nos oferecer nada de novo, mas sobretudo por ser apenas mais um caso entre tantos outros que vêm a debate no futebol português.

 

Ao ler as passagens citadas do acórdão do Conselho de Disciplina sobre o processo da queixa do Sporting contra o Benfica, fiquei com a sensação de que estava perante uma muito imaginativa coreografia de uma peça de teatro que anima um qualquer palco de Lisboa, porventura com o título do post "Quando os anjos descem à terra".

 

"Uma troca de palavras (...) sem conteúdo significativo." Foi assim que Artur Soares Dias descreveu a conversa com Rui Costa no intervalo do Sporting-Benfica da época passada, disputado em Abril, e que motivou uma participação disciplinar do Sporting, que acusou o director-desportivo das águias, bem como o treinador Rui Vitória e o assessor jurídico Paulo Gonçalves de "tentarem coagir" o árbitro portuense para a segunda parte.

 

O Conselho de Disciplina arquivou recentemente a queixa em questão, absolvendo o trio de benfiquistas, baseando-se sobretudo nos depoimentos de Artur Soares Dias e dos delegados da Liga ali presentes - também eles foram alvos de participação do Sporting por alegada omissão nos respectivos relatórios.

 

"Confirmo ao intervalo a existência de uma troca de palavras no túnel com elementos do Benfica e do Sporting, no meu entender sem conteúdo significativo relevante para mencionar esses fatos no relatório, assim como acontece na maioria dos jogos, onde os elementos da equipa evidenciam as sua razões de discórdias das decisões tomadas no primeiro tempo", começou por descrever Soares Dias.

 

"Em nenhum momento a minha atitude foi diferenciado entre os elementos das duas equipas, mantendo o diálogo e a calma habitual de forma a naturalizar os ânimos que por norma são emocionantes e fervorosos neste tipo de jogos", prosseguiu o árbitro, salientado que a sua conduta "teria sido a mesma caso a conversa tivesse ocorrido em pleno relvado". "Termino realçando que em nenhum momento me senti condicionado, nem senti que tivesse sido posta em causa a minha competência, uma vez que o diálogo foi cordial e normal", garantiu.

 

Os delegados da Liga, por sua vez, acabaram por confirmar que Rui Costa e Artur Soares Dias "conversaram acerca de alguns lances mais controversos ocorridos na primeira parte do jogo. Diálogo este que, que ocorreu de forma normal, tranquila, calma, aberta e igual a tantas outras conversas que ocorrem semanalmente nos estádios de futebol", explicaram, garantindo que "nunca ocorreu qualquer tentativa de 'pressionar, coagir e influenciar o discernimento da equipa de arbitragem para a segunda parte do jogo' como fantasiosamente pretende fazer passar a participação disciplinar efectuada pela Sporting Clube de Portugal - Futebol, SAD".



Dois penáltis em causa

 

Reinaldo Teixeira, coordenador dos delegados da Liga, também foi ouvido, pois estava no túnel de Alvalade e foi indicado como testemunha. "O sr. Rui Costa interpelou o árbitro principal da partida, dizendo-lhe num tom cordial e respeitoso algo como 'Ò Artur, o que é que é preciso para marcar penáltis? São logo dois', respondendo ato contínuo o referido árbitro 'Ó Rui, essa é a tua opinião, eu não vi penáltis nenhuns'", consta do acórdão divulgado esta terça-feira pelo Conselho de Disciplina.

 

"Nesse momento chegam dois elementos da equipa do Sporting, nomeadamente Raul José, treinador-adjunto, e Nélson, treinador de guarda-redes, que se dirigem a Rui Costa, afirmando 'Joguem à bola, não reclamem'. A esta afirmação o sr. Árbitro responde dizendo 'A conversa não é convosco, posso conversar com este Senhor?'. E com esta resposta do Sr. Árbitro os referidos elementos da Sporting SAD dirigiram-se para o seu balneário", conta Reinaldo Teixeira.

 

Segundo a mesma testemunha, nesse momento já estavam na zona do túnel Luís Filipe Vieira e Paulo Gonçalves. Este último "não emitia opinião, estando um pouco mais afastado do local onde os agentes desportivos dialogavam".

 

"O presidente Luís Filipe Vieira dirigia-se somente aos seus jogadores com as seguintes expressões 'É hora de descanso. Vamos para o balneário. Balneário, balneário', ao mesmo tempo encaminhando-os para o referido balneário", conta.

 

Quanto às palavras de Rui Costa, Reinaldo Teixeira considerou que as palavras ditas ao árbitro Soares Dias "não" visaram condicionar, pressionar ou colocar em cousa a competência do referido árbitro. "Mais esclareceu que conhece o sr. Rui Costa há muitos anos e que noutros jogos já assistiu a intervenções do sr. Rui Costa, aí sim, agressivas e impróprias. Neste caso em concreto, assistiu somente a um diálogo correto, cordial e respeitoso", pode ler-se no acórdão.

 

Os árbitros-auxiliares Paulo Soares e Rui Licínio, bem como João Pinheiro - quarto árbitro - corroboraram todos estes testemunhos.

Imagens de videovigilância não desmentem

 

O Conselho de Disciplina viu também as imagens do sistema de videovigilância. "Ainda que pontualmente a conduta dos agentes desportivas ora em causa se possa aproximar, ali ou acolá, de revelar maior exaltação, julgamos que não têm as mesmas nem a virtualidade de colocar em causa 'a palavra' dos agentes de arbitragem, quanto a factos por si diretamente percecionados e no exercício das suas funções, nem sequer de romper as malhas de qualquer ilícito disciplinar.

 

Por isso, e considerando que todos os factos apurados se traduzem num manifestar de discordância relativamente a decisões da equipa de arbitragem num quadro de respeito pelo árbitro, afiguram-se suficientes para afastar a prática de qualquer ilícito disciplinar ou, no mínimo, sustentar uma dúvida razoável sobre a conclusão essencial do cometimento, pelos arguidos, das infracções pelas quais vinham indiciados".

 

publicado às 04:36

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