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Ser Sporting não se implora, não se ensina, não se espera, somente se vive... ou não.

Na década de 1950 era habitual os jogadores de futebol despedirem-se dos adeptos através de uma “Festa de Homenagem”. Havia futebol, por vezes mais do que um jogo, discursos, ofertas e, conforme os casos, louvores e medalhas. No caso dos jogadores do Sporting era normal participarem outros do Benfica, Belenenses ou de clubes da região de Lisboa. Era frequente organizarem-se equipas mistas de vários clubes. Tratava-se de uma significativa forma de solidariedade entre companheiros do mesmo ofício.
José Travassos despediu-se dos sportinguistas numa “Festa de Homenagem” em 7 de Setembro de 1958, muito embora durante essa época ainda tenha alinhado com alguma frequência. Com o Estádio de Alvalade cheio, o “Zé da Europa” foi homenageado pela Federação Portuguesa de Futebol, Associação de Futebol de Lisboa e Sporting Clube de Portugal com as suas medalhas de serviços relevantes. A Direcção Geral dos Desportos tornou público um louvor. Como era habitual, houve inúmeras prendas, inclusivamente um cão de caça. Para além de excelente futebolista, Travassos era um grande caçador.
O momento alto da “Festa de Homenagem” foi um Sporting - Benfica com todas as estrelas e a estreia de vários novos jogadores. Na equipa sportinguista, capitaneada por José Travassos, jogaram Carvalho, Mário Lino e João Morais que tinham sido contratados nesse mesmo Verão, apresentando-se assim aos adeptos em Alvalade. Todos revelaram grandes qualidades, mas Morais teve uma verdadeira estreia de leão ao marcar os dois golos da vitória leonina por 2-0.
Em 1986, José Travassos foi distinguido com o Prémio Stromp na categoria Saudade.

No dia 13 de Agosto de 1955 o “violino” José Travassos tornou-se no primeiro futebolista português a actuar numa Seleção da Europa. Foi num jogo com a Inglaterra comemorativo dos 75 anos da Federação Irlandesa disputado em Belfast, na Irlanda do Norte. Por essa razão deram-lhe a alcunha de “Zé da Europa”.
Travassos recebeu a convocatória para esta partida quando já se encontrava de férias na Costa de Caparica, e por isso teve de voltar a treinar sozinho assumindo a honrosa chamada com o maior empenho. A secção europeia derrotou a inglesa por 3-1, o jogador sportinguista foi considerado um dos melhores em campo, pelo que jogou e pela influência directa num dos golos que deu origem à vitória. No final do desafio, muitos consideraram-no o estratega da selecção europeia e destacaram a sua visão de jogo, a capacidade de remate, os dribles estonteantes, os passes milimétricosa e a rapidez da corrida. Um jornalista inglês escreveu que “com um penteado impecável, é tão brilhante com os pés como o seu inalterável penteado de brilhantina”.
Pela sua participação, José Travassos mereceu um agradecimento especial por parte da UEFA à Federação Portuguesa de Futebol e foi galardoado pelo Presidente da República com a Ordem de Mérito Desportivo. Recebeu, ainda, 25 libras e uma placa comemorativa. A camisola que ele utilizou no jogo está exposta no Museu do Sporting.
A Selecção da Europa alinhou com os seguintes jogadores: Lorenzo Buffon (Itália); Bengt Gustavsson (Suécia) e Alfons Van Brandt (Bélgica); Ernst Ocwrik (Áustria), Robert Jonquet (França) e Vujadin Boskov (Jugoslávia); Leschly Sörensen (Dinamarca), José Travassos (Portugal), Ferenc Puskas (Hungria), Raymond Kopa (França) e Jean Vincent (França).
Na fotografia (separata do Mundo de Aventuras), Travassos mostra ao filho a camisola da Selecção da Europa.
Sabe-se de ciência certa que um jogo de futebol é semelhante a uma peça de teatro. Nele encontram-se os ingredientes principais da arte dramática, sendo que o campo é o próprio palco, o treinador faz de director de cena e os jogadores são os actores. O público, esse, só pode ser o coro como numa tragédia grega. Alcino Pedrosa num belíssimo texto (O Teatro e o Futebol) no Leitura de Jogo mostrou que é assim mesmo.
Esta conversa vem a propósito de um dos dérbis mais espectaculares de que alguma vez ouvi falar. Foi um Benfica-Sporting disputado na Estância de Madeira, no Campo Grande, em 25 de Abril de 1948. Os leões precisavam de vencer por três golos de diferença para, tendo a mesma pontuação do rival, ultrapassá-lo na tabela classificativa do Campeonato Nacional.
Na primeira volta o Sporting foi derrotado no Estádio José Alvalade (antigo Stadium Lisboa) por 1-3. O golo leonino foi conseguido por Travassos aos 89 minutos, mas o desalento da derrota impediu o festejo. Provavelmente, o Zé da Europa não imaginou nesse dia o valor que pode ter um golo marcado a um minuto do final de um jogo de futebol. Daquela vez, nem o coro foi capaz de anunciar o que estava para acontecer.
O Sporting era treinado por Cândido de Oliveira, um benfiquista que jogou de águia ao peito até sair em 1920 para ser um dos fundadores do Casa Pia Atlético Clube. Os jogadores eram do melhor que alguma vez vestira a camisola do leão rampante. Os “Cinco Violinos” e companhia não tremiam no momento de enfrentar o destino num campo de futebol.
A semana que precedeu o dérbi foi de arrasar os nervos para os lados de Alvalade. Peyroteo andou adoentado com febre e, para piorar tudo, na direcção do Clube houve quem desconfiasse da táctica que o treinador estava a preparar para o grande confronto. Houve quem garantisse que seria suicida, desconfiando do benfiquismo de Mister Cândido. Pelos vistos, já não havia memória daquela tarde de Junho de 1923, em Coimbra, quando Cândido de Oliveira foi o massagista dos leões num Sporting-FC Porto nas meias-finais do Campeonato de Portugal.
O Sporting apresentou-se muito forte no Campo Grande. Peyroteo fintou a febre e depositou um póquer de ases na baliza do infortunado Contreiras. Espírito Santo ainda reduziu o marcador, mas os quatro golos do bombardeiro de Alvalade determinaram o destino do título de campeão nacional. Não esquecendo o golinho do Travassos ao cair do pano no dérbi da primeira volta, como que a hybris da tragédia grega (a acção contra o estabelecido) naquele campeonato. Muitos anos mais tarde os Deolinda cantariam que “o que tem de ser tem muita força”. Nem mais !
Então, no meio dos festejos e senhor do seu destino, Cândido de Oliveira profere a célebre frase "somos bestiais quando ganhamos e bestas quando perdemos" e apresenta o pedido de demissão. O director do Sporting que duvidou do treinador procurou-o no emprego para o demover, jurando que a demissão seria a dele, o dirigente. Cândido, grande como sempre, apertou-lhe a mão dizendo que ficavam os dois para a conquista do título.
O Sporting passou para a liderança do campeonato pela diferença de um golo, não havendo alteração até ao final da competição. Os leões foram derrotados em Setúbal, mas às águias aconteceu o mesmo em Elvas. Campeão por uma singela bola que atravessou a fatídica linha da baliza. Uma bola, uma bolinha… um berlinde! Os benfiquistas, desesperados, chamaram-lhe o "campeonato do pirolito". Pegou de estaca até aos nossos dias essa do pirolito, a bebida gaseificada e doce que era feita à base de ácido cítrico e de essência de limão, com um berlinde de vidro a fazer de rolha.
Por ter sido o Campeão Nacional em 1947-48 o Sporting tomou posse da monumental “Taça O Século”, com 1,23m de altura. Venceu, ainda, a Taça de Portugal ao derrotar o Benfica nas meias-finais (3-0) e o Belenenses na final (3-1), coroando uma época memorável com a segunda dobradinha da sua História, para além da vitória na Taça de Honra da Associação de Futebol de Lisboa.
Ficha do jogo
Campeonato Nacional da I Divisão (1947-48)
22ª jornada
Benfica 1 - Sporting 4
25 de Abril de 1948, Estância de Madeira (Campo Grande)
Árbitro - Libertino Domingues (Setúbal)
Benfica - Contreiras, Jacinto e Fernandes, Moreira, Félix e Francisco Ferreira, Espírito Santo, Arsénio, Julinho, Corona e Rogério “Pipi”
Treinador - Lipo Hertzka
Marcador - Espírito Santo (75m)
Sporting - Azevedo, Álvaro Cardoso e Juvenal, Carlos Canário, Luís Moreira e Veríssimo, Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano
Treinador - Cândido de Oliveira
Marcador - Peyroteo (35, 41, 58 e 69m)
Nota: Fotografia da equipa do Sporting com os três troféus que conquistou na época de 1947-48 e de Fernando Peyroteo num dérbi com o Benfica (não datado).
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