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De quem é o título do Sporting?

Rui Gomes, em 18.05.21

Depois de ter estado em serviço nos festejos que foram de Alvalade ao Marquês, depois de ter visto imagens, vídeos, muitos comentários, de ter lido umas quantas coisas, de ter falado com muita gente, amigos, ou apenas conhecidos, cheguei à conclusão que:

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O título do Sporting CP é o título dos pacientes e dos nervosos, dos apaixonados e dos que já não ligavam. É o título dos que escolheram acreditar sempre sem ver, dos que deixaram de crer, dos que torciam e continuaram a torcer mesmo não chegando a lado nenhum, dos pais que esperavam e dos filhos adolescentes que nunca tinham sentido.

É o título de todos que abraçaram humildemente o sofrimento como forma de vida, dos que aprenderam a saber perder.

É o título dos viscondes e dos cantoneiros, dos abastados e dos remediados, das pessoas com sobrenomes com dupla consoante e dos Silvas, é dos baby boomers, da geração X, dos millennials e da geração Z. É o título dos posts de Instagram da Dona Dolores. Da aletria do Bancada de Leão. É o título dos confiantes e dos que até final acreditaram que ia acontecer Sporting. É o título dos românticos mas também dos pragmáticos. É até o título dos que se portaram mal e o título dos que fugiram à responsabilidade.

É o título dos não burocratas, dos talentosos, dos que trabalham muito e são bons no que fazem sem precisar de ter passado pela universidade. É o título dos que fizeram all in mas que souberam ir passo a passo. Dos cínicos e dos que com desconhecidos se fundiram num abraço. É o título dos sarcásticos, dos bem-humorados, dos que não se levam muito a sério. É o título que esperavam aqueles que esperam o inesperado.

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É o título de quem bebeu um copo a mais. Dos garotos e dos homens de barba rija. Dos que saíram para a rua e dos que ficaram em casa. Dos que sentiram um aperto no peito quando começou o "You Can't Always Get What You Want" naquele vídeo ("but if you try sometimes, well, you just might find...").

É o título dos que acabaram de chegar e de todos os que já cá não estão. É o título do meu sobrinho e é o título do meu tio António. É o título dos que se emocionam sem pedir desculpas - e não têm de o fazer. É o título de quem usa rastas e de quem usa polo, é o título de famílias inteiras e o da ovelha negra. É o título de Lisboa, do Porto, dos Açores e de Maputo.

Sejamos do Sporting, do FC Porto, do Benfica ou do Tondela, o título do Sporting também é o título do futebol. Ou... do porquê de gostarmos tanto do futebol. Porque só podemos gostar de futebol se gostarmos das ricas histórias que ele nos dá. Das possibilidades. Do impremeditável. Tudo o resto é sectarismo.

Artigo da autoria de Lídia Paralta Gomes, em Tribuna Expresso

publicado às 03:48

Uma bolha forçada no Algarve para tentar conter o surto que adiou o primeiro jogo no campeonato. Ser goleado em casa para um rosado adversário austríaco barrar a entrada na Liga Europa. Um efusivo capitão a marcar muitos golos às últimas dos jogos. Ou um presidente que é médico nas horas vagas a anunciar o abandono de um "mundo patético".

Pelo que é estatisticamente oficial, o Sporting Clube de Portugal é campeão nacional pela 19.ª vez, o clube contabiliza essas vezes em 23 pelos seus cálculos, mas essas são contas para outros momentos que não estes, os que voltaram a dar o título em questão à versão verde e branca e leonina de um grande.

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De entre tudo o que aconteceu ao Sporting durante esta época, escolhemos 16 momentos para resumirem a evolução da equipa, explicarem tendências da temporada, aperaltarem certas vitórias conseguidas e ilustrarem os jogos que pontuaram a conquista. A estrelinha não tem de ser só dita, e redita, pelo treinador, também pode ser contada.

E esta é a animação gráfica e multimédia que a Tribuna Expresso juntou para o tentar fazer.

publicado às 03:03

Acreditar sem ver

Rui Gomes, em 11.05.21

mw-300.pngNão sou uma pessoa religiosa, e até aprendi muito recentemente que me qualifico como uma analfabeta emocional, mas creio que a transcendência de acreditar em algo que não vemos e que não sabemos bem explicar é das experiências mais fascinantes da vida humana, e essa é uma fé que perpassa toda a nossa existência, caso a saibamos cuidar, nos vários parâmetros da nossa vida.

Como, por exemplo, o desportivo. Invariavelmente, no final de cada época, as cores até podem mudar, mas a frase é sempre a mesma: "Para o ano é que é!"

A crença infindável do amor clubístico, ano após ano, não deixa de ser chocante, porque mesmo perante as maiores desgraças e tristezas infligidas, permanece mais ou menos intacta, também por nossa escolha. E é devido a esse amor invisível que os clubes são o que são, mesmo quando ficam, como é o caso atual do Sporting, 19 anos sem conquistar um campeonato nacional.

A última vez que o Sporting foi campeão eu tinha 14 anos, vivia na ilha e mal sabia ainda o que era o futebol, quanto mais o mundo. Rúben Amorim tinha 19 anos e estava a iniciar a carreira de jogador e Nuno Mendes e Tiago Tomás ainda nem tinham nascido, ou seja, nunca viram o seu clube ser campeão. O FC Porto (e o Benfica) que me perdoe, mas esta é uma história muito bonita e até merecida, depois daquele 5 de março de 2020 de muita fé de Rúben Amorim (e do baque que foi a eliminação da Liga Europa...):

"Eu pergunto: e se corre bem?"

E não é que correu mesmo?

Excerto do artigo de Mariana Cabral em Tribuna Expresso (disponível aqui)

publicado às 03:17

Uma montanha-russa chamada futebol

Rui Gomes, em 28.04.21

"O que não podemos fazer é andar nesta montanha-russa, que toda a gente anda. O Sporting vai perder pontos; agora é candidato; e depois vai perder pontos... Andamos nisto de semana para semana. Temos de ter os pés bem assente na terra. Podemos perder pontos em qualquer jogo e temos de trabalhar muito."

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Quando Rúben Amorim falou numa... montanha-russa, na conferência de imprensa após a vitória (heróica, convenhamos) do Sporting sobre o Braga, ri-me. Perdoem-me os mais sérios, mas o que me veio prontamente à cabeça foi algo que já tinha pensado previamente... o próprio do mister sentado numa dessas carruagens que sobem e descem, onde prefiro nunca meter os pés (nem mesmo quando fui à Disney, e escusam de insistir, que isso é coisa de malucos). Isto porque sempre que vemos o treinador do Sporting, no banco ou na bancada, lá está ele, frenético, a andar, de um lado para o outro, irrequieto, inquieto, algo maníaco até, numa vivência tão intensa do jogo que gostaria de saber o que diria o relógio esperto que pudesse ter no pulso sobre o batimento cardíaco e as calorias gastas ao longo de 90 minutos.

Independentemente do que possa acontecer nos últimos cinco jogos da Liga portuguesa, algo é certo... o Óscar de maior protagonista desta Liga NOS 2020/21 é de Rúben Amorim.

O treinador do Sporting, que conheci em 2017 quando ele ainda estava longe de o ser, mudou quase tudo em Alvalade (e quase tudo ontem à noite, com as substituições que fez), mas particularmente essa vivência diária que é tão comum no futebol português: a da montanha-russa.

Calma.

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Na verdade, é o que nos falta a todos, hoje em dia. Um pouco de calma e, particularmente, de autocontrole, para não cair em definições rotundas - e jocosas, e insultuosas - baseadas apenas num ato, num golo, num jogo, numa semana. Nas redes sociais (depois são necessários boicotes...), nas televisões, no café. Pelo menos no Sporting, Rúben Amorim conseguiu fazê-lo, não só nas conferências de imprensa certeiras, mas na junção de um grupo com tanta gente tão ligada ao mesmo que todos parecem influentes, até mesmo Plata, que regressou ontem do 'castigo'. Com todo o respeito pelos outros, Rúben Amorim é o melhor desta Liga.

Artigo da autoria de Mariana Cabral, em Tribuna Expresso

publicado às 13:45

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Excelente artigo de Diogo Pombo, Tribuna Expresso, sobre o Sporting CP, em geral, e Sebastián Coates, em particular. É muito longo para ser reproduzido aqui no Camarote Leonino, mas recomenda-se a sua leitura. Para dar uma ideia, transcrevo dois parágrafos:

"Rúben Amorim chegou-lhe à convivência em Março do ano passado, as mudanças notaram-se a partir daí, embora não tanto quanto depois de feita uma pré-época com o treinador, as suas intenções, o sistema e a forma de jogar. Com ele veio uma última linha de três centrais para Sebastián Coates ser o do meio, o esteio, onde a sua lentidão e os seus movimentos algo pesados são protegidos pela teoria de que mais facilmente haverá alguém perto, na contenção, a reduzir os espaços que o uruguaio tenha de cobrir".

"Sebastián Coates ficou como o central do centro, o que muitas vezes dobra os outros dois e sobra na marcação. O sistema favorece-o, o uruguaio confortou-se e esta época tem-no demonstrado: entre defesas, é o que tem mais alívios feitos (85), tackles bem sucedidos (30) e até remates bloqueados (17) no campeonato. No número de intercepções (43), fica atrás de Nuno Mendes (54) e Luís Neto (44), mostram os dados do “WhoScored” que não servem para provar um contexto, mas existem como seu reflexo".

Muito interessante, para quem gosta de ler sobre futebol.

publicado às 03:32

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Gostei muito deste breve parágrafo que extraí da crónica de Lídia Paralta Gomes, em Tribuna Expresso, no qual, em poucas palavras, diz tudo sobre a grande performance do Sporting em Braga e, muito em especial, a do brilhante capitão leonino:

"O Sporting ganhou em Braga por 1-0 num jogo em que aos 18 minutos já estava a jogar com menos um e onde teve de ser pragmático: fechar-se lá atrás e esperar um nesga, um erro, uma albertura minúscula do vórtex. E ela apareceu, já nos últimos dez minutos, com Matheus Nunes a dar aos leões muito provavelmente a vitória mais inesperada da época. Mas antes disso, houve um Sebastián Coates que limpou tudo, que não falhou um único corte, um lance aéreo ou uma bola dividida. Faltava um, mas ele fez com que não parecesse".

publicado às 05:34

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A análise objectiva dos resultados do primeiro semestre das três SAD, que acabam de ser publicados, mostra como a diferença de forças é inversa aos resultados. O mais fraco está a ganhar, os mais fortes a perder. E se o Sporting assim merece todos os elogios, por ter de longe menos dinheiro, FC Porto e Benfica têm de ser chamados à cobrança. Sobretudo o clube da Luz: é inadmissível gastar tanto dinheiro e ter tão baixos retornos. Não se trata aqui, pois, de análise desportiva, coisa que remeto para quem aqui na Tribuna Expresso percebe a sério de futebol. Trata-se de uma análise da gestão. E da má gestão.

Num clube, os sócios são muito mais importantes que os accionistas. Porque não se ganha campeonatos para lucrar, lucra-se para ganhar campeonatos. Mas clubes inviáveis não têm futuro. Que o diga o Sporting, que mesmo beneficiando de um perdão de dívida camuflado nas VMOC está agrilhoado por múltiplos erros financeiros que o iam matando. Daí ser exigível avaliar não só treinadores, mas também gestores.

Números gordos: o Benfica e o FC Porto gastaram cerca de 50 milhões cada um em custos salariais nos primeiros seis meses deste ano de 2020/2021. O Sporting gastou menos de 30 milhões. Menos 40% que os rivais.

O Sporting CP baixou os custos salariais em cerca de 17%, para 29,1 milhões. E o FC Porto estará sensivelmente no mesmo nível do ano passado. É que embora o relatório e contas mostra uma subida de 18%, para 51 milhões, estes valores incluem prémios de 9,5 milhões relativos à época anterior (vitória no Liga e na Taça). Quando se retiram estes prémios relativos à época passada, o nível salarial do FC Porto é inferior ao do Benfica, que aliás tem o “jogador” mais caro de Portugal: Jorge Jesus.

Os resultados desportivos do Sporting são assim ainda mais notáveis. O clube dirigido por Frederico Varandas é de longe o menor dos três (em activos, em receitas e em salários) e não investiu este ano, pelo contrário, reduziu custos. Mais: este ano também é o que perde mais receitas, porque não tem competições europeias a compensar as perdas de bilheteira e de publicidade, pelo que acumula prejuízos. Ganhar o campeonato, se se confirmar, não tirará o Sporting CP do lugar difícil em que está, mas garantirá um crescimento de receitas brutal no próximo ano, desde logo pelo acesso à Champions.

A crónica completa de Pedro Santos Guerreiro, em Tribuna Expresso, aqui.

publicado às 04:18

Frase do dia

Rui Gomes, em 04.02.21

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"A última vez que o Sporting ganhou ao Benfica em casa, estava o Nuno Mendes a fazer os TPC de Geografia no 6.º ano. Festejei tanto no golo, que devo ter induzido os meus vizinhos em erro, levando-os a achar que tinham anunciado o fim da pandemia".

Diogo Faro (Tribuna Expresso)

publicado às 03:17

Late Night with Rúben Amorim

Rui Gomes, em 28.01.21

lpg.jpgDurante o passado fim de semana, ao abrir um conhecido site de alojamento de vídeos começado por “Y” e acabado em “Tube”, surgiu-me nas sugestões uma entrevista de Rúben Amorim a Rui Unas, já com uns três anos. Rúben havia terminado a carreira há poucos meses e nos primeiros minutos da conversa admite que só por essa razão estava ali, sentado naquele cadeirão, porque durante os seus tempos de jogador não era exactamente livre de dizer o que pensava, porque é raro um clube gostar de um jogador que fale mais do que o guião pré-cozinhado e bastante bem aquecido durante três minutos em conferências de imprensa anódinas - e isto já sou eu a dizer, não aquele Amorim de há três anos mas, por outras palavras, foi isto mesmo que ele disse.

Para fechar este segmento da conversa, Rui Unas remata com um: “Por um lado há uma coisa boa de teres saído do mundo profissional, é que assim já podes ter uma expressão”, algo a que Amorim responde quase imediatamente com o “sem dúvida, sem dúvida” mais aliviado que vi nos últimos tempos.

Pois bem... sendo agora, três anos depois, treinador de um clube grande, Rúben Amorim terá seguramente certo guião ou conjunto de regras, muitas delas talvez não escritas, sobre o que pode ou não dizer. E manobrar essas regras a seu favor, que é mais fácil de se fazer quando se é treinador do que jogador, também é um sinal de inteligência. Nisso, o técnico do Sporting tem sido irrepreensível e o espectáculo que deu na cabine da Sport TV após a final da Taça da Liga, que aliás venceu pela segunda vez consecutiva, um momento de late night televisivo mais à americana do que à portuguesa, foi uma vitória quase tão grande quanto aquela que teve em campo.

Houve espaço para tudo, desde aquele banter entre antigos colegas, com Rúben a gozar com o aumento de peso de José Sousa, com quem jogou no Belenenses, até ao jogo e às suas incidências, com Amorim a ter uma resposta honesta e franca sobre quase tudo, às vezes nem sequer respondendo a perguntas mas sim aproveitando deixas.

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A honestidade e a capacidade de não se levar excessivamente a sério são grandes armas comunicacionais e Rúben Amorim trata-as talvez como ninguém cá dentro: só assim é possível assumir que os jogadores da equipa adversária lhe deram tudo um dia e que por isso sentiu o dever de os cumprimentar no final do jogo, um a um, a muitos com abraços demorados. Ou ainda que passa os Natais a falar com Antero Henrique, seu cunhado mas também figura de relevo de um FC Porto de outros tempos. Sem que nada disto melindre a florzinha de estufa que é o nosso futebol, tão pouco capacitado para entender que isto não tem de ser feito de constantes guerras: as pessoas têm passados - Rúben até é benfiquista - e isso é a vida, não precisamos de ficar assanhados por causa disso.

A conversa é totalmente premium, até no sentido financeiro da coisa porque, infelizmente, só quem assina a subscrição que dá total acesso aos cinco canais da Sport TV a pôde ver inteiramente em directo, sem soluços. Porque no seu canal aberto, a Sport TV optou por interromper Rúben Amorim para transmitir a enésima conferência de imprensa de um presidente a dizer mal da arbitragem e, de premeio, a atacar a equipa adversária, naquele caso em específico porque teve o desplante de festejar um título, por mais mixuruca que ele seja.

(Isto é um bocadinho como as nossas bocas abertas depois dos resultados eleitorais de domingo. Muitas vezes nós, jornalistas, fazemos uma escolha, colocamos as luzes em cima de alguém. Não me verão aqui a dizer que fizemos bem ou mal, porque eu própria não tenho essa resposta. Apenas que temos o dever de reflectir).

Também foi pena não transmitirem no canal aberto a conferência de imprensa de Luís Neto, que até sendo um bom central, será seguramente no futuro um ainda muito melhor comentador, a prova absoluta que os jogadores de futebol, mesmo obrigados a regras, podem sempre encontrar algum espacinho entre as amarras para falar bem, claro, com substância e olhar crítico.

O Sporting anda a ganhar e não é só dentro de campo.

Artigo da autoria de Lídia Paralta Gomes, em Tribuna Expresso.

publicado às 03:33

O carteiro tocou duas vezes

Rui Gomes, em 04.01.21

Uma pessoa revisita as últimas equipas do Sporting e haverá muitos adjetivos para lhes colar, mas nenhum deles será certamente “competente” ou “eficaz”. Ou até “sólida”.

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Mas é isso que o Sporting CP transpira por estes dias, principalmente desde que a grande qualidade de jogo que mostrou no início da época se desvaneceu. Mas talvez seja esse o segredo das equipas candidatas a algo: ganhar mesmo nos momentos menos bons, quando os melhores jogadores desaparecem (olá Pedro Gonçalves).

Frente ao SC Braga, o Sporting tinha o primeiro grande teste em muito tempo, pelo menos o primeiro grande teste desde que é líder e, não tendo sido muito provavelmente a equipa que melhor jogou em Alvalade, foi não obstante aquela que definiu melhor e controlou os momentos essenciais do jogo, algo que o treinador Rúben Amorim até já vem falando, pelo que, provavelmente, não será por acaso.

O carteiro só precisou de tocar duas vezes e com tudo isto, já são 14 jogos seguidos sem perder para este Sporting. Uns foram mais bem jogados, outros menos, mas o certo é que a equipa de Rúben Amorim começa o ano de 2021 a vencer um dos jogos mais importantes deste Janeiro terrível, que pode definir muito do que vai ser a temporada dos leões.

Excerto da crónica de Lídia Paralta Gomes, em Tribuna Expresso

publicado às 04:02

Pobre Miguel Cardoso... O jogador do Belenenses SAD fez uma boa exibição, marcou um golo, mas falhou um penálti. Poucos minutos depois, o Sporting beneficiou de uma grande penalidade e João Mário não a desperdiçou. Maior terá sido o sofrimento do jogador azul. Uma noite em branco, quase de certeza. Refazer o remate na cabeça até acertar. Bola nas redes. E, a cada tentativa, o pesadelo redivivo. Os braços tentaculares de Antonio Adán a segurarem a bola. Que noite de insónia.

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Venha de lá o consolo... Não foi o avançado que falhou, o guarda-redes é que defendeu. Pois, pois. Vão lá dizer isso ao avançado para ver se ele adormece mais depressa. E eu, por afinidade e temperamento, até sou pelos guarda-redes, tão poucas vezes heróis e tantas vezes os vilões mais predilectos da frustração colectiva, os bodes expiatórios das falhas da equipa. Então é deixar que os levem em ombros quando à força de ombros, braços e mãos aguentam o edifício precário da vitória.

Não há coisa mais linda, garanto-vos, quando o quase sempre esquecido, o sacrificado, o periférico guarda-redes é trazido das distantes margens do jogo para o centro solar da festa e reconhecido pelos companheiros e recebe os louvores habitualmente destinados aos craques, aos artífices do golo, aos geniozinhos em ponta de chuteira. A glória não tem de vir em jogos a sério, com equipamentos a rigor e transmissão televisiva.

Perguntem a qualquer miúdo, mesmo qualquer um, se não teve uma manhã ou uma tarde de glória no recreio da escola primária ou no campo de futebol de cinco à porta de casa, num baldio por detrás dos prédios ou num quadrado de relva com árvores a fazerem de postes, e ele responder-vos-á e decerto não terá de fazer grande esforço de memória para recuperar do passado esses momentos intactos em que foi rei.

Pode ler o artigo completo de Bruno Vieira Amaral, em Tribuna Expresso, aqui.

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Nota: Antonio Adán, guarda-redes contratado pelo Sporting ao Atlético de Madrid, teve no domingo, frente ao Belenenses SAD, um momento raro na sua carreira, ao defender um penálti e negando assim o golo a Miguel Cardoso.

O guarda-redes espanhol defendeu apenas o sexto penálti da carreira, no entanto, a lista de nomes travados em grandes penalidades tem dois ilustres pelo meio: Messi (Barcelona, 2014) e Neymar (Barcelona, 2015).

publicado às 05:00

Baixas expectativas trazem invariavelmente boas surpresas. Porém, o esforço de baixar as expectativas retira-nos o prazer do optimismo e da confiança. Se, quando as coisas correm bem, estamos sempre a pensar na sua inevitável transitoriedade, acabamos por viver num estado de limbo eterno de tristezas ténues e contentamento medíocre. A existência torna-se insuportavelmente morna.

No entanto, o que é incontestável é que há um prazer específico que decorre de as coisas correrem melhor do que estávamos à espera. Sentimos não só a alegria, mas o resgate da resignação em que nos tínhamos afundado. Isto para falar da inesperada e extraordinária caminhada do Sporting no campeonato até agora. Os sportinguistas têm todas as razões para estarem entusiasmados, mesmo que muitos estejam já a regular o entusiasmo para níveis próximos do pessimismo e do fatalismo, não vá a equipa sofrer um daqueles súbitos bloqueios que em parte explicam dezoito anos de insucessos.

Não me parece que um eventual problema venha dos jogadores que têm jogado. Mais para a frente, lesões e castigos poderão expor a falta de profundidade do plantel, mas os que têm jogado até agora fazem-no de uma forma que contraria tudo aquilo a que já chamei “sportinguidade”. Ao longo das últimas temporadas, há em certos jogadores do Sporting um peso existencial que vai muito para lá das suas condições técnicas. Em alguns deles, esse peso é bem visível assim que chegam ao clube e são de imediato contaminados, como espíritos fracos propensos à possessão demoníaca.

Os mais fortes veem a resistência esgotar-se ao fim de alguns resultados negativos. Basta uma simples bola na barra e o melhor jogador do mundo transforma-se num veterano das distritais. Até os jogadores da formação, que entram na equipa principal com a qualidade e a irreverência natural da juventude, vão-se diluindo aos poucos numa estrutura atávica e repetitiva de frustrações. Isto para nem sequer falar de turistas que chegam a Alvalade por empréstimo exibindo um esplendoroso desinteresse por tudo o que os rodeia como se nem sequer soubessem em que país aterraram.

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O vincado desafio de vencer essa inércia, essa invencível propensão para a derrota, tem sido o grande drama do Sporting nos últimos anos. A equipa joga sobre brasas. A cara de jogadores experimentados, como Coates, exprime muitas vezes um pavor lívido perto do pânico, como se, tal qual um filme de terror, a terra pudesse abrir-se à sua frente e tragá-los ou a bola ganhasse vida e ameaçasse devorá-los. Bruno Fernandes, talvez o melhor jogador do Sporting nos últimos quinze anos, jogava com raiva, agressividade e espírito de luta, mas nunca com alegria. Jogava, como escrevi aqui, exasperado com os colegas, com os árbitros, com o mundo. Jogava contra tudo e contra todos. Jogava num paroxismo de infelicidade.

Podem os especialistas da bola dizer que, no futebol profissional, a alegria nada conta, é um vago estado de espírito que não se pode medir nem avaliar. Em parte, concordo, mas depois vejo a alegria do jovem Pedro Gonçalves a jogar e aquilo que parece confuso torna-se claro. Pote, é assim que o chamam, joga com uma alegria transbordante. Arrisco dizer que, noutra época, jogadores com o perfil de Pote e, em certa medida, de Nuno Santos, já estariam queimados no Sporting. O público de Alvalade pode gabar-se de ser fiel, mas também pode ser uma inegável cruz para os jogadores, uma nuvem negra geradora de uma ansiedade tóxica. E o que vejo é estes jogadores a jogarem sem complexos, sem traumas, sem o temor dos assobios.

A camisola do Sporting pesa-lhes, mas no bom sentido, que é o de jogarem num grande. Jogam leves, sem fatalismos. Pote joga com um sorriso, remata com um sorriso, festeja com um sorriso. Os golos que ele tem vindo a marcar são de uma simplicidade genial. Não têm arabescos, nem cornucópias, nem rodriguinhos, seguem apenas o caminho natural das botas para a baliza. É tão simples que dá vontade de rir. E é por isso que ele se ri muito. E nós também.

Se acham que a alegria é mera conversa de escritor, tudo bem. Voltem lá às análises das transições e desses outros bichos tácticos. Eu apenas recupero as palavras de um dos primeiros treinadores do miúdo: “Ele praticamente cresceu sozinho. Lembro-me que ele foi assaltado algumas vezes e houve um dia que estava triste porque lhe tinham roubado os cromos. Mas nos treinos e nos jogos era sempre um miúdo alegre.” Percebem? Bruno Fernandes – perdoem-me voltar à comparação – de cada vez que rematava fazia-o para pôr fim a uma maldição. Pote, em cada remate, em cada golo, reinventa a alegria.

Artigo de Bruno Vieira Amaral, em Tribuna Expresso

publicado às 04:00

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No total, entre SC Braga e Sporting CP, Rúben Amorim leva 16 jogos na Liga NOS: ainda não perdeu, empatou 3 vezes e venceu por 13 ocasiões. Mas convenceu muito raramente, apesar dos resultados notáveis Num vídeo produzido pelo SC Braga, aquando da chegada de Rúben Amorim, o então técnico dos minhotos referiu, em jeito de apresentação, que “a ideia é que se consiga entender o que o SC Braga vai fazer, mas não seja fácil de parar”.

A frase é deveras simples, mas levanta uma questão altamente relevante que está na base da construção de uma ideia de jogo com bola e que, acredito, divide os treinadores em dois grupos: ou se pretende o nosso futebol ofensivo o mais ordenado possível, rigoroso nos posicionamentos e capaz de espelhar com perfeição os automatismos que trabalhamos nos treinos ou se, por outro lado, pretendemos gerar constantes problemas diferentes ao adversário dentro da nossa organização de jogo, para desafiar os equilíbrios que nos vão procurar impor.

No fundo, ou padronizamos, ou, como referiu Vítor Pereira, procuramos que o jogo seja menos de régua e esquadro, menos dos treinadores, mas mais dos jogadores.

Não acreditando em fórmulas corretas ou incorretas, porque o futebol já se encarregou de nos mostrar que se ganha e alcança o sucesso de diversas formas, e percebendo que Rúben Amorim pretende com esta frase dizer que quer conferir organização à sua equipa e tarefas bem explícitas aos seus jogadores, julgo que existe um paradoxo nesta lógica: quanto melhor se conseguir entender o que neste caso o Sporting CP quer fazer, mais facilmente o conseguirão parar.

No clube de Alvalade, Rúben Amorim tem procurado replicar praticamente tudo o que estava a criar em Braga. Do sistema colectivo aos papéis individuais em cada posição, o que se tem visto é tudo aquilo em que Amorim acredita. Um jogo mais dele do que dos jogadores, conforme diz o próprio.

“O que quero fazer é dar-lhes uma identidade, uma organização e uma forma de estar em campo em que, sim, continuamos a depender deles, mas menos. Sermos consistentes e, depois, aqueles últimos 10% pertencem ao jogador”, explica o treinador no vídeo de apresentação do SC Braga já referido.

A verdade é que, por enquanto, na Liga NOS, o registo é quase perfeito: em 16 jogos (nove no SC Braga e sete no Sporting CP), ainda não perdeu, ganhou 13 e só empatou por três vezes. Pelo meio, conquistou uma Taça da Liga na qual bateu tanto leões como dragões. Os resultados são incríveis, mas pessoalmente creio que Rúben Amorim tem vencido mais do que convencido.

E, devo dizer, tive pena que o Sporting não tenha conseguido ganhar ontem em Moreira de Cónegos porque, assim, esta publicação pode parecer influenciada pelo último empate dos leões, mas é até precisamente o oposto: apesar dos grandes resultados que Amorim tem conseguido, o seu futebol parece-me não justificar tamanha superioridade.

Nem ontem, nem quando ganhou.

Quando assim é – quando os resultados e as exibições não se justificam entre si – cria-se um problema de sustentabilidade. Mais cedo ou mais tarde, quem joga bem e perde há de começar a ganhar e quem vence sem convencer vai ter problemas. Neste momento, o Sporting CP, já sem beneficiar tanto do efeito surpresa de que o SC Braga beneficiou, é uma equipa demasiado previsível, com pouco jogo interior, refém das amarras atribuídas aos seus médios e, sem Mathieu e com Eduardo Quaresma ainda longe do seu potencial, órfã de centrais com mais capacidade na fase de construção.

Se assim é, perguntam... como é que não perde e tem ganho tantos pontos aos rivais? “Tenho tido bons jogadores, sorte nos momentos certos e gente que acredita em mim”, respondeu o próprio treinador, antes da última partida.

De facto, as pessoas tendem a desvalorizar a componente da sorte e do azar, mas Amorim tem tido muito mais da primeira do que da segunda. Foram vários os jogos em que, ainda em Braga ou já nos leões, as partidas poderiam ter terminado com resultados diferentes.

Ainda assim, é impossível não o referir, há também vários méritos claros do técnico da moda. Tem as ideias claras, e isso será sempre uma vantagem, comunica muito bem, tanto para fora como para dentro, ou não conseguiria impor as suas ideias de forma tão rápida junto dos jogadores, e é alguém profundamente positivo, que transmite confiança – e esse é um aspecto basilar em qualquer equipa.

A possibilidade de formar um plantel à sua imagem, coisa que ainda não pôde fazer nem num clube nem no outro, com uma pré-época pelo meio, irá ajudar a entender se o que vimos até agora foi somente uma ‘fase introdutória’ da ideia de jogo de Rúben Amorim e se há evoluções no modelo dos leões.

É a proverbial prova dos nove que, em conjunto com a competência do clube no mercado de transferências para apetrechar ou não o plantel de mais qualidade, ditará o sucesso na próxima temporada dos verdes e brancos.

Texto de João Almeida Rosa, em Tribuna Expresso

Nota: Não conheço este João Almeida Rosa, não sei se escreve objectivamente e livre de influências partidárias e, fundamentalmente, os seus conhecimentos de futebol, dentro e fora das quatro linhas. É um escrito interessante, com um ponto de vista algo diferente do que se tem visto no que a Rúben Amorim diz respeito, como treinador.

Subscrevo algumas das suas considerações, mas hesito em aceitar que quem vence sem convencer está destinado a ter problemas. Hoje em dia, especialmente em Portugal, há pouco futebol convincente, por conseguinte, quando se chega ao apito final, o futebol que convence é precisamente o futebol que vence, indiferente se o percurso é mais ou menos atractivo.

Neste momento, na Liga NOS, temos apenas dois clubes a disputar o título, e um deles, muito provavelmente o FC Porto, vai, em breve, sagrar-se campeão. O seu futebol justifica os resultados?

publicado às 05:19

Considerações de Vítor Oliveira

Rui Gomes, em 30.06.20

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Recém-entrevista que Vítor Oliveira concedeu a Isabela Paulo, Tribuna Expresso, que se recomenda ao leitor, pelas considerações de um treinador muito experiente - actualmente no Gil Vicente, próximo adversário do Sporting - sem necessariamente concordar com tudo.

Limitei-me a escolher três considerações que acho interessantes:

"Jogar para ganhar é mais galvanizador do que para não perder. É um futebol mais positivo, mais alegre. Viver ao longo da semana e vésperas do jogo com a ideia de ganhar dá-nos outra motivação para o treino e até para a adversidade. Jogar para não perder é um tormento e põe as pessoas velhas. E não quero ficar velho tão depressa".

- "Louvo a coragem de Ana Gomes - e nota a falta dela entre políticos. Tem razão na defesa pública de Rui Pinto. Se calhar, cometeu um crime grave, mas confirme-se o que denunciou e investigue-se quem cometeu ilegalidades. Quem duvida da veracidade dos e-mails do Benfica ?... Precisamos de uma classe política diferente!".

- "Não acredito que o Sporting lute pelo título na próxima época com estes jogadores. É impossível e é preciso mais. Agora acredito plenamente que pode fazer com estes jovens uma parte final de campeonato excelente. Não há a pressão do título e não há público nos estádios. São duas ajudas enormes e o Sporting pode tirar alguns benefícios".

A entrevista completa disponível aqui.

publicado às 15:00

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Michel Platini, ex-presidente da UEFA, deu uma entrevista ao diário francês "Le Monde" esta terça-feira. Entre os assuntos abordados, a atribuição do Campeonato do Mundo de 2022 ao Qatar e as suspeitas de corrupção que têm corrido a propósito da decisão.

Além de negar que lhe tenham pago para votar como votou, Platini garante que não sentiu pressões políticas por parte do então presidente francês, apesar de se ter encontrado com Nikolas Sarkozy e com o atual emir do Qatar no Eliseu por alturas da votação, em 2010.

Outras questões que essa competição tem suscitado referem-se à sensatez, ou não, de a realizar num país tão quente como o Qatar, e também às condições em que trabalham e vivem os operários, largamente migrantes, envolvidos na construção das instalações.

Respondendo a uma pergunta sobre se lamenta ter votado a favor do Qatar para organizar o Campeonato do Mundo, sabendo agora que só entre 2012 e 2018 terão morrido 2700 trabalhadores migrantes nas obras, Platini responde: "Quando votas, não sabes que vai haver mortos nos estaleiros. Fazes uma escolha, segundo as tuas convicções profundas. A única coisa que eu disse, foi que, se houve corrupção, temos de retirar a competição ao Qatar".

Em relação aos efeitos da pandemia no futebol, Platini é taxativo: "Nenhumas a longo prazo! Tudo o que se vai passar nos próximos anos não dependerá da Covid-19, mas da evolução dos interesses e dos desafios do futebol profissional. O sistema será cada vez mais forte. Vai retornar e acelerar-se".

Reportagem de Luís M. Faria, Tribuna Expresso

publicado às 03:00

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As claques podem fazer falta a muita gente que anda no futebol – desde logo, aos líderes das claques, aos seus funcionários e membros, aos presidentes dos clubes que se servem deste lumpemproletariado da bola para intimidar adversários internos e pôr os jogadores na linha, uma espécie de guarda pretoriana de baixo custo, cães de guarda que os próprios presidentes seguram frouxamente pela trela, deixando no ar a ameaça implícita de que se podem soltar a qualquer momento – mas as claques não fazem falta nenhuma ao futebol.

Quando alguém ousa criticar as claques – uma crítica a sério e não as picardias clubísticas disfarçadas de surtos de ética – aparece sempre um lírico, um idiota inútil, a louvar a contribuição histórica das claques para o desenvolvimento da modalidade, as coreografias asiáticas que levam tanta gente aos estádios, o apoio inexcedível em comparação com o espírito soturno dos adeptos que desanimam desde o apito inicial. Assim à distância e com esta descrição ninguém conseguiria distinguir claques de futebol de grupos de escuteiros amantes de trabalhos manuais.

Quando se vê de perto, o caso muda de figura. Porém, há quem prefira fechar os olhos.

Essa tem sido a atitude da direção do Benfica em relação às suas claques, e em particular à sua claque principal, os No Name Boys, uma confraria de bons rapazes sem existência oficial e que o clube escolheu não ver. Agora paga o preço dessa cegueira voluntária. O relativo silêncio que se seguiu ao apedrejamento do autocarro do clube – imagine-se a gritaria se tivessem sido adeptos de outro clube a cometer o ato, as reuniões que já teriam sido pedidas, os comunicados pungentes, os apelos à intervenção da ONU – demonstra até que ponto o clube está refém destes grupos recheados de indivíduos perigosos, violentos, desocupados e que canalizam para a pertença a estas seitas para-futebolísticas todas as suas frágeis noções de identidade e de valor individual e também todas as suas frustrações e raivas acumuladas.

A legalização das claques – ou “grupos organizados de adeptos”, em juridiquês assético – tem o único mérito de reconhecer a sua existência, que é um primeiro passo para acabar com elas. No fim de contas, só se pode acabar com aquilo que existe. O grande problema da atitude da direção do Benfica em relação às claques é o da auto-manietação.

Julgavam-se muito espertos, com aqueles truques do “claques? Não faço ideia do que está a falar”, e agora, quando elementos das claques apedrejam o autocarro da equipa e vandalizam as casas dos jogadores, são obrigados a ficar calados sob pena de terem de reconhecer aquilo que estrategicamente sempre negaram.

Diga-se que este tipo de cegueira selectiva não se limita às claques.

O caso de Paulo Gonçalves, o ex-assessor jurídico da SAD amigavelmente afastado do núcleo dos negócios, mas não da sua órbita, é outro exemplo da crença desta direção no poder da palavra ou das aparências. As claques não existem, o clube não tem nada que ver com o senhor Paulo Gonçalves, mesmo que este, apenas por mera casualidade, seja agora intermediário de negócios em que o clube está envolvido. E, pronto, se fingirmos que a realidade não existe, viveremos candidamente no melhor dos mundos.

Uma certa dose de cinismo é aceitável em todas as áreas da vida. Aquilo a que chamaria de “blindagem técnica e jurídica” também faz parte da vida de muitas empresas. Mas há limites para a esperteza. Dito de outra forma, aceito que alguém, dentro do Benfica, tenha achado muitíssimo inteligente a estratégia de não reconhecer as claques, mas a partir do momento em que o erro fica exposto, a única solução é a de arrepiar caminho e não se enredar ainda mais em novelos jurídicos e auto-justificativos. Ou Luís Filipe Vieira assume de uma vez que tem um problema em mãos ou o problema rebenta-lhe nas mãos, quer ele o reconheça, quer não.

A pedrada no autocarro do Benfica foi uma pedrada no charco, no pântano em que se tem tornado o futebol português. Porém, não foi uma pedrada para agitar as águas. Pelo contrário, foi como se a pedra tivesse sido expelida pelo próprio charco. É um sintoma – um de muitos – que devia forçar os responsáveis a procurar uma cura. Já se sabe que, no Futebol Clube do Porto, apesar de um ou outro desaguisado, a relação de Pinto da Costa com os Super Dragões só é ultrapassado pela de Deus Todo-Poderoso com o seu exército de anjos.

No Sporting, por razões bem conhecidas, Frederico Varandas está numa duradoura guerra de baixa intensidade com a principal claque do clube.

No Benfica, a bola está do lado do presidente. Pode aproveitar o momento para pôr a claque na ordem ou pode, uma vez mais, fechar os olhos. Se optar pela primeira, será líder. Se jogar como até aqui, será cúmplice.

Artigo da autoria de Bruno Vieira Amaral (assumido benfiquista), em Tribuna Expresso.

publicado às 04:33

A "salada" do dia

Rui Gomes, em 05.06.20

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"A salada não tinha condimentos? Não, não tinha. Mas se os produtos forem bons, a salada é boa".

Nisto das metáforas... aprecio muito uma das últimas obras do pensador popular Sérgio Conceição. O futebol sem público, diz ele, “é como uma salada sem azeite, sal e vinagre”. Sim, claro. Acho que todos concordamos. Mas a grande verdade só vem a seguir: “mas se tivermos fome temos de comer na mesma”.

É um adágio bastante pragmático e eu sou pelo pragmatismo. De facto, um estádio sem público é um estádio um bocadinho mais insosso, mas isso quer obrigatoriamente dizer que o jogo vai ser mau?... Não, felizmente o V. Guimarães - Sporting mostrou-nos que mesmo uma salada sem condimentos é bastante apetecível se a alface for fresca e crocante e o tomate saboroso. Se os produtos forem bons, o espectáculo nunca se perderá.

Lídia Paralta Gomes, crónica de jogo em Tribuna Expresso.

publicado às 12:00

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Em comunicado à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, a SAD do FC Porto indica que a administração “deliberou solicitar a convocação de uma assembleia geral de titulares de obrigações denominadas ‘FC PORTO SAD 2017-2020’”. Foi a confirmação oficial daquilo que tinha sido já veiculado ao longo de domingo.

Por outras palavras, a SAD do clube da Invicta não tem meios para pagar já em Junho, como compete, os produtos financeiros que vendeu em 2017, num montante global de 35 milhões de euros. O objectivo de momento passa por devolver o montante apenas no próximo ano. Contudo, note-se, em 2021, a SAD azul e branca tem outro empréstimo, igualmente de 35 milhões de euros, para saldar junto de investidores.

As obrigações agora em foco foram colocadas junto de investidores, incluindo adeptos, em Junho de 2017, e que a SAD do FC Porto deveria devolver já em Junho de 2020. Só que esta assembleia geral convocada pela administração de Pinto da Costa pretende que os obrigacionistas aceitem mudar os seus “termos e condições”, em particular para promover a “alteração da data de maturidade para 9 de Junho de 2021”.

O administrador financeiro da SAD, Fernando Gomes, explicou que o objectivo inicial era fazer uma nova emissão de obrigações para substituir aquela que foi feita em 2017, mas que as condições de mercado, incertas devido à pandemia, não o permitem.

Só que, muito além de a pandemia Covid-19 ter vindo estragar os planos às sociedades anónimas desportivas, o FC Porto já tinha contas com números muito complicados. A SAD presidida por Jorge Nuno Pinto da Costa registou prejuízos de 52 milhões de euros no primeiro semestre fiscal (entre Julho e Dezembro de 2019), devido à quebra de receitas pela não qualificação para a fase de grupos na Liga dos Campeões passada.

Quando sairam as contas em Março, todo este caminho pela frente, que passa também pela renegociação de dívidas, tinha já um obstáculo por perto: o reembolso desta emissão obrigacionista, cuja devolução fica agora nas mãos dos obrigacionistas – não há ainda data para a reunião que vai tomar esta decisão.

Empurrando para 2021 o reembolso desta emissão de obrigações de 2017, a SAD do FC Porto vai fazer encontrar - se não houver mais alterações - os prazos de reembolso de duas operações do mesmo género. A emissão de obrigações feita em 2018, com os títulos a valerem 35 milhões de euros, tem prazo de devolução exactamente para Junho de 2021.

Texto assente parcialmente numa reportagem de Diogo Cavaleiro, Tribuna Expresso.

publicado às 13:03

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Não foi sem surpresa que me vi perante um escrito na Tribuna Expresso da autoria do nosso velho conhecido Nuno Saraiva, antigo director de comunicação do Sporting, pelos vistos, a propósito da recém-decisão da Mesa da Assembleia Geral.

Por ser um artigo muito extenso, limito-me a transcrever os dois parágrafos iniciais, com a restante leitura acessível aqui:

"Quem me conhece sabe que, no último ano e meio, tenho vindo a reflectir, de forma distanciada e tão desapaixonada quanto me é possível – o que é quase ficção –, sobre a realidade do Sporting Clube de Portugal.

Se me perguntarem se me arrependo de algumas das coisas que fiz enquanto director de comunicação do meu Clube, a resposta é “obviamente que sim”. Mas isso não é novidade para ninguém.

Também não é surpresa, para quem comigo partilha este amor clubístico, a angústia em que vivo pela situação que nos encontramos e pelos actuais resultados desportivos a roçar a mediocridade com que temos que conviver, semana após semana, no que ao futebol diz respeito.

Já os restantes, todos aqueles que não me conhecem e que se dedicam exclusivamente a fazer juízo de caracteres que ignoram e a comentar a espuma ínfima dos dias, vão, muito provavelmente, ficar surpreendidos com esta minha reflexão. Ou porque preferiam que eu alinhasse com a turba que, diariamente, defenestra o Presidente do Sporting por todo o lado, ou, com a outra turba, que dirá qualquer coisa do género 'Hum! A conversa deste gajo traz água no bico, só pode'”.

publicado às 03:18

21367886_8PUwG.jpegO que se está a passar no Sporting é o resultado de anos e anos em que o Clube foi ficando gradualmente refém das claques, capazes de fazer e desfazer treinadores e jogadores, mas também de impor a sua vontade e sobretudo os seus múltiplos interesses económicos aos presidentes e às administrações do clube de Alvalade.

Frederico Varandas teve a coragem de as enfrentar. E não pode ser deixado sozinho neste combate.

Os arruaceiros, que estavam muito mal habituados a mandar no Sporting e cujas benesses e prebendas subiram em exponencial com Bruno de Carvalho, não desistem.

Nas assembleias gerais insultam, apupam, gritam – e quando chega a hora das votações perdem sistematicamente por mais de 70% dos votos.

No estádio insultam o presidente e assobiam a equipa.

No Pavilhão João Rocha fazem emboscadas, agridem dirigentes e menores.

Mas já não é só o regresso do destituído Bruno de Carvalho que querem. O que lhes dói é que Frederico Varandas tenha tido a coragem de os enfrentar, de lhes cortar os benefícios excessivos de que desfrutavam e de lhes mostrar claramente que quem manda no Sporting são os sócios e a Direcção eleita em assembleia geral e não eles.

O combate é duro, duríssimo, tanto para os dirigentes do Sporting como até para as suas famílias, porque estes energúmenos não têm valores nem princípios. Querem submeter à sua vontade todos os que lhes fazem frente. Daí que peçam insistentemente a demissão de Varandas.

E é por isso que, neste momento, todos os sportinguistas que querem um Sporting limpo destas desastrosas influências têm de se unir em torno do presidente, mesmo que tenha tomado algumas decisões erradas e mesmo que a equipa principal de futebol esteja a fazer uma época muito má.

Mas não é isso o que mais importa. Neste momento, o que é decisivo é saber se o Sporting continuará a ser um clube democrático, com princípios e valores, ou se acabará por cair nas mãos de uma ralé cujo sportinguismo assenta unicamente nos muitos milhares de euros com que vinha a ser beneficiada todos os anos.

Neste ingrato combate contra as claques, Frederico Varandas está certíssimo. E só é pena que o Governo e os outros clubes grandes de Portugal não apoiem uma medida urgente para sanear o futebol português: a proibição de claques organizadas, que são um antro de desordeiros, de droga, de marginalidade e de violência.

Em Inglaterra fizeram a limpeza e o campeonato inglês tornou-se um dos mais vibrantes do Mundo. Porque é que em Portugal a mesma medida não há-de resultar?

Texto da autoria de Nicolau Santos, Tribuna Expresso.

publicado às 04:03

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