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Uma Aurora Boreal para recordar

Drake Wilson, em 02.09.16

 

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Embora tratando-se de um sublime espectáculo de luzes e cores, a "Aurora Borealis" é na realidade apenas um evento inerente ao campo visual, próprio do espaço polar do nosso planeta. Tal visão poderia descrever, ao mesmo tempo, uma observação deste louco e delirante momento apraz ao nosso universo leonino nestes dias. Um cenário incomum, talvez um psicadélico revivalismo contumaz a eufóricos períodos de Gonçalves/Cintra, no que à memória imediata diz respeito. Com as devidas diferenças, naturalmente. Confesso que parte de mim tinha saudades deste frenesim.

 

Alvalade ao rubro

 

Entre a placidez de uma maternidade e a insanidade de um hospício, Alvalade tem destas coisas: alcançou na janela de mercado a espectacular soma de 80 Milhões de Euros em vendas perante supostas “costas voltadas” ao mercado, como também garantiu uma “mão cheia” de reforços de matriz acima da média, contra qualquer previsão mais optimista. À vista, o Sporting está de parabéns! Fica supostamente mais forte e essencialmente marca uma posição de força perante os directos competidores. 

 

Embora circunstancial, este neoliberalismo de entradas e saídas muda no espaço de um mês um paradigma mais conservador do nosso Clube. Mas talvez o Sporting precisasse mesmo de mudar. O plantel ficaria fragilizado com a saída de qualquer um dos jogadores com mais mercado e Jesus sabe o quão lacónica é a teoria de uma “selecção da Academia” vencer campeonatos – existem claramente exemplos que cimentam uma diferença entre clubes formadores e clubes vencedores. E aí, não poderíamos continuar a ser diferentes dos outros, durante muito mais tempo. Mesmo assim, para não desconsiderar o papel da formação, convém reflectir sobre uma programação conveniente e profissional da futura integração de jovens jogadores na equipa A. “Isto” de se ir ao mercado e trazer jogadores consagrados pode nem sempre ser possível, tal como esta euforia de contratações tem de ser sustentada com a mesma firmeza com que Jesus pede reforços: talvez ainda esteja para nascer alguém que consiga dizer “Não” ao treinador.

 

Havia necessidade...?

 

Numa aparente quimera – talvez crença inabalável – que tem sobrado desde que esta direcção empossou, demonstra-se assim aquilo que sempre se desejou desde o primeiro dia: colocar o Sporting a fazer igual ou melhor, tanto ou mais que os outros, mesmo que sacrificando a sua própria identidade aos braços do mesmo cariz burguês e gastador que assiste a FC Porto e SL Benfica. A verdade é que, com menos recursos, o ano passado conseguiu-se um segundo lugar no Campeonato. Na minha opinião, esta vaga de novos reforços perfila claramente uma intenção de Champions League mais do que de consumo interno. Faz sentido? Talvez sim. Mas mesmo que a intenção fosse optar por um caminho mais lento, com menos investimento imediato, o desagrado de alguém iria ser sentido em breve. E não me refiro nem aos adeptos nem a Jesus. Refiro-me à Cláusula 19.

 

A misteriosa Cláusula 19.

 

Existem hoje pessoas que circulam com relativa liberdade dentro das instalações do Clube. Essas pessoas são, na realidade, os legais representantes (ou consultores) do Agente de Empréstimo (Banca), que realizam com frequência as inspecções técnicas, financeiras e legais a toda a actividade e património da SAD. Algo que foi devidamente acordado com consentimento do Clube, que entre outras questões se vê obrigado a:

 

- Cumprir todas as leis, directivas ou regulamentos comunitários ou contratos por si celebrados.

 

- Cumprir todas as decisões judiciais, arbitrais ou administrativas nas quais o Sporting esteja/seja envolvido.

 

- Realizar tudo o que seja necessário para proteger, constituir ou tornar eficazes perante terceiros as Garantias.

 

- Desenvolver os seus melhores esforços no sentido de obter um aumento significativo das receitas relativas à actividade desportiva desenvolvida pela equipa de futebol, a qual deverá até 2022 participar na fase de grupos da Liga dos Campeões.

 

- Desenvolver os seus melhores esforços na criação de receitas adicionais, nomeadamente de Naming Rights e internacionalização da Academia.

 

Do mesmo modo, são conhecidos alguns pontos fundamentais nos quais o Sporting está:

 

- obrigado a uma maior contenção verbal e mais profissional abordagem ao exterior. 

 

- obrigado a evitar futuros contenciosos com quaisquer entidades.

 

- obrigado a realizar as vendas que justifiquem a onoração do Agente de Empréstimo em assegurar actuais e futuras permanências de activos. Após a venda, entregar 30% do valor negociado.

 

- obrigado a uma participação contínua na Champions até ano 2022. Entre 31 de Outubro (70%) e 31 de Janeiro (30%), o Sporting terá de entregar 5(!) milhões de parte do prémio de participação “Champions” (7 Milhões a partir de 2017/2018).

 

- obrigado a negociar o direito de nomeação do estádio para breve.

 

Sabendo que era intenção de Bruno de Carvalho manter mais um ano os melhores activos, a verdade é que o mercado falou, a Banca apercebeu-se, e o Sporting não podia fazer nada para impedir saídas. Porém, facto é que existia uma verba “camuflada” todo este tempo no Clube (eu próprio tive de andar a fazer contas para a descobrir), um tal de Hedging de 30 Milhões pelas verbas comerciais durante 15 anos, que iria sempre salvaguardar a liquidação de um negócio de última hora – os valores  (tranches) que sobram das vendas de Slimani e João Mário nunca ficariam disponíveis antes de Outubro.

 

Os adeptos merecem o melhor.

 

Em suma: estamos agora em 1.º lugar no campeonato, já vencemos a um dos directos competidores pelos títulos nacionais. Acabámos o período de transferências da melhor maneira, com o plantel a sair manifestamente reforçado. Uma espécie de mesa de Natal pródiga, onde até os proscritos são perdoados. Os lugares sentados até podem não ser os suficientes para tamanho agrupamento de emoções, mas com esta fartura, ninguém se importa de aplaudir em pé.

 

publicado às 10:30

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5 comentários

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De Marcos Cruz a 02.09.2016 às 11:46

Compreendendo as condicionantes de um mercado inusitadamente frenético, não posso dizer que me sinto absolutamente confortável com os movimentos feitos pelo SCP. A chegada de um lateral-esquerdo, face à realidade visível de nem Jefferson nem Marvin encherem as medidas de Jesus, parecia-me importante para consolidar uma defesa que, hoje, só no eixo está convenientemente apetrechada, sendo João Pereira, do meu ponto de vista, e a despeito das aparências, apenas uma solução a prazo e não uma verdadeira alternativa a Schelotto, ele próprio em crescimento (sobretudo táctico) e processo de afirmação; a contratação de Markovic dá-me a sensação de que obedece mais a uma necessidade de enquadrar no plantel uma figura simétrica a Carrillo, em matérias que transcendem o futebol jogado, do que a qualquer carência específica para os corredores ofensivos ou o apoio ao ponta-de-lança, já que num caso temos Gelson, Bruno César, Bryan Ruiz, Matheus Pereira, Campbell e (talvez) Meli, jogadores cujas características oferecem diferentes tipos de solução para o lugar, e no outro há Alan Ruiz, Bryan Ruiz, Campbell e até Castaignos ou André, tratando-se Bas Dost, como o próprio afirmou, de "um 9 puro"; o recurso a Petrovic foi, notoriamente, um tiro ao lado, com William e Paulista (após o empréstimo de Palhinha), tudo o indica, a negarem-lhe quaisquer aspirações; André e Castaignos inspiram-me dúvidas, pelo sentido declinante das suas carreiras, mas concedo que era difícil atingir alvos indiscutíveis; aplaudo Bas Dost, Campbell, Douglas e, com um pouco mais de reserva, Elias, embora reconheça a importância de recrutar uma alternativa fiável a Adrien (mas não foi para isso que se contratou Meli?); Alan Ruiz terá de dizer peremptoriamente ao que vem, se só joga à bola ou futebol, e a avaliação de Spalvis, o azarado do plantel, talvez já não possa ser feita esta época. Com tudo isto e muito mais, espero que se torne possível construir um grupo coeso: uma fortaleza a defender, um rolo compressor a atacar. Sobre os três casos que mais marcaram o mercado, felicito a direcção pela forma como actuou quer com Slimani e João Mário (facturando acima das expectativas) quer depois com Adrien, cuja permanência me parece, aqui num juízo puramente pessoal, a melhor notícia deste defeso.
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De Diogo Martins a 02.09.2016 às 11:56

Caro Drake,

Repercutindo para este post outras conversas.

Cito-o:

"A sua contabilização numérica carece de uma avaliação de factos. Só no que respeita a verbas da Champions, terá de deduzir 5 milhões a entregar ao agente credor até 31 de Outubro. A partir do próximo ano serão 7 milhões. Pois é Diogo..."

Note que o prize money da Champions é composto por cerca de 13M fixos + 2M market pool + prémios de participação (se o Sporting ganhar dois jogos, são 3M) + prémios de bilheteira.

Portanto, mesmo o desconto de 5M implica que o Sporting apresente, em relação ao ano passado, uma mais-valia nas suas contas acima de 10M, sendo certo que o demais dinheiro não "desaparece" - reduz passivo.

"No que respeita aos valores de comercialização de direitos desportivos de atletas, será necessário o levantamento dos moldes de pagamento. Depois, retire o imposto de selo referente aos mesmos, sem mais encargos imediatos fiscais – visto tratar-se de uma transferência para solo internacional. Porém, desconte ao valor total, uma percentagem de 30% a cativar pelo agente credor. Entende?"

Note que a percentagem de 30% aplica-se apenas a uma tranche de 14M que deverá ser, em boa parte, preenchida com a venda do João Mário. A partir daí, a percentagem retida é de 20%.

"Receitas extraordinárias com direitos e publicidade? Essas já têm dono: agradeça ao Hedging de 30 milhões, estabelecido em 2014 (ou 2015 creio), pelo prazo de 15 anos, naquele que é um dos piores acordos que se poderia ter feito."

Sinceramente, desconheço ao que se refere e gostaria que pudesse informar mais sobre este assunto.
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De AntonioP a 02.09.2016 às 12:55

Boas, sou benfiquista e apesar de acompanhar alguns blogs de clubes adversários, não gosto de comentar nesses blogs, pois estão em "sua casa" e têm direito às suas verdades, por mais ridículas que me pareçam.
No entanto, como neste blogs há sportinguistas e não apenas "carneirada", tomo a liberdade de brir uma exceção:
- já muitos sportinguistas tomaram consciência da clausula 5ª do acordo Quadros que retira 30% do excedente de valorização do passe do jogador (caso de Slimani 30-8) para pagamento de dividas ao banco. Medida salutar, não me importava que o meu clube a adotasse, pelo menos no pagamento das dívidas aos bancos - os empréstimos obrigacionistas estão noutro nível.
- parece-me que pouco sportinguistas leram a clausula 24ª do mesmo documento que obriga o Sporting (com maiúsculas, tal como Benfica deve ser com maiúsculas) a colocar 20% do excedente numa conta de reserva para pagar os VMOC. Mais uma vez uma situação lógica. No entanto, se os VMOC não são passivo, esta verba não abate passivo.
- Conclusão: da venda do Slimani, o Sporting fica com 17M, "dá" 4M ao fundo, abate 5,4M no passivo e 3,6M do passivo escondido (VMOC).
- Conclusão2: os VMOC podem não estar registados como passivo, mas na realidade são de pagamento obrigatório, o que significa que o passivo da SAD do Sporting não são os 240M oficiais (R&C), mas sim 240M+140M de VMOC ao que se tem que acrescentar a (re)compra da academia. O passivo do SCP clube e do SCP SGPS é um mistérios pois os documentos não são públicos (nem são controlados pela CMVM), embora haja pistas para os seus valores.

Notem que não pretendo entrar em polémica clubisticas, pelo que, se os responsáveis do blog acharem a mensagem não tem nada útil, podem/devem apagá-la.

Cumprimentos desportistas
AntonioP
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De HY a 02.09.2016 às 15:32

Sem polémicas, caro António: sendo que não me parece pelo texto que ache mal que o Sporting se tenha comprometido a abater os seu passivo, que explicação encontra para a campanha lançada pelos responsáveis do seu clube contra o acordo de reestruturação financeira feito pelo Sporting, atacando-o como se fosse um favor que a banca nos fez (o que obviamente, não é a sua opinião, deduzo do texto)?
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De AntonioP a 02.09.2016 às 16:39

Eu não me falei sobre a reestruturação da dívida do Sporting, mas se quer a minha opinião, concordo que foi "um favor que a banca fez ao Sporting".
Fazes-me mudar de opinião se me indicares empresas que tenham juros a 0% (lê os R&C e vê quanto o Benfica, o Porto e o Sporting pagam em juros e depois compara as dividas à banca - incluindo VMOC).
Claro que o Sporting é obrigado a pagar o que deve aos bancos (embora no caso dos VMOC não seja obrigatório). Mas o mesmo acontece às outras empresas. No caso do Benfica para além de pagar 13M em juros, ainda tem que renegociar os empréstimos.

Quanto ao pagamento de dívidas, sou de opinião que os clubes, para serem sustentáveis deveriam ter passivo exigível (banca+empréstimos obrigacionistas) da ordem de 2,5 a 2 vezes o total de proveitos, por isso, masi tarde ou mais cedo o Benfica e o Porto também terão que pagar à banca. Para veres o quanto considero isso importante direi que se, no próximo R&C, o Benfica tiver baixado o passivo de pelo menos 30M, votarei LFV, caso contrário depende dos outros candidatos.

Outro ponto: nunca vi os responsáveis do meu clube atacarem a gestão do Sporting, ao contrario do que se passa com os responsáveis do SCP, normalmente quando precisam de desviar as atenções.

AntonioP

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