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A (in)disciplina

Esfinge, em 14.05.19

 

Na época 1993/1994 o FC Porto foi ao estádio da Luz perder com o Benfica por 2-0. Nesse jogo, Fernando Couto foi expulso por ter dado uma cotovelada a Mozer. O FC Porto era treinado por um Senhor, Bobby Robson. O FC Porto fez um jogo épico, com menos um elemento. Sir Bobby Robson recusou-se a fazer alterações defensivas e obrigou a equipa a jogar 3 para 3 na defesa contra o ataque do Benfica (João Pinto, Aloísio e Rui Jorge contra Ailton, João Pinto e Yuran).

 

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No final da partida ficou a frase: "Resultado: Mozer dois, Fernando Couto zero." (quem quiser recordar a conferência de imprensa, deixo aqui a ligação). Fernando Couto passou os 15 dias seguintes a treinar à parte.

 

Sou absolutamente contra as chamadas de atenção em público. São contraproducentes e podem gerir incompatibilidades difíceis de curar. No entanto, um patrão é-o tanto mais quanto mais capacidade tiver para enfrentar as questões difíceis desde que seja para as resolver.

 

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Uma expulsão acontece. O futebol faz-se de contactos, nem todos são evitáveis. Duas expulsões, pode ser azar, ao fim e ao cabo, um duplo amarelo é algo que está sempre à mão de semear. Mas, o que dizer quando um jogador recebe, numa única temporada, 3 cartões vermelhos directos? Até pode pedir desculpa depois de ter visto o primeiro, e aceita-se. Mas 3?! (Em comparação Coentrão tem 2 vermelhos, ambos por acumulação, Ricardo Costa tem 3, 1 por acumulação).

 

O Sporting esta época é a quarta equipa com mais vermelhos (4), e é a terceira equipa com mais amarelos (96). Se somarmos dois duplos amarelos, o Sporting acabou 6 jogos a jogar com 10 - cerca de 20% dos jogos para o campeonato. Da lista dos 10 jogadores com mais amarelos, aparece Gudelj (12) e Coates (9).

 

Em comparação, o FC Porto, que sempre teve fama de apresentar um futebol aguerrido, é a última equipa da Liga NOS no parâmetro disciplinar: nenhum vermelho e apenas 58 amarelos.

 

Para o próximo jogo, o Sporting vai arrancar com, pelo menos, dois jogadores impedidos por motivos disciplinares. O jogo já não conta para nada, mas poderia contar.  Gerir um plantel é perceber que também isto é prejudicial e deve ser corrigido.

 

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publicado às 04:19

Estatutos para o futuro

Esfinge, em 13.05.19

 

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Na noite das últimas eleições, e após conhecimento dos resultados, houve uma questão que, de imediato, saltou à vista de todos - a questão da legitimidade democrática quanto a órgãos eleitos por uma maioria relativa de Sportinguistas - ou seja: os actuais corpos sociais foram eleitos pela maior minoria dos sócios, mas ainda assim, uma minoria. 

 

Que fique claro, não contesto os resultados nem a legitimidade de quem lá está. As regras do jogo eram e são simples: é eleito quem for mais votado do que todos os outros. Os eleitos foram-no com 42,33% dos votos, mais do que o segundo colocado, 36,88%.

 

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Ora, prosseguindo. Este tipo de apuramento eleitoral faz sentido quando se está perante órgãos em que é possível exercer-se a representatividade, tal como é o caso da Assembleia da República.  Uns elegem mais do que outros, mas todos elegem. Mas o Sporting não tem este tipo de órgãos (nem faria sentido).

 

Assim, esta lógica torna-se inaplicável no contexto Sporting; 42,32 por cento não é uma maioria absoluta, nem sequer representa a maioria de Sportinguistas que se pronunciaram eleitoralmente. E, na minha opinião, isso é prejudicial para a legitimidade democrática de quem exerce os cargos, e também para a coesão e união da comunidade Sportinguista - dizer que se foi eleito pela maioria é diferente de dizer que se foi eleito apenas pelo maior número.

 

A solução é simples: uma segunda volta entre as duas candidaturas mais votadas - sendo o eleito aquele que obtivesse mais votos de forma absoluta. O eleito era-o pela maioria dos Sportinguistas e não apenas por uma facção menos pequena.

 

Os órgãos eleitos saíriam reforçados, poderiam dizer que foram eleitos pela maioria e não haveria qualquer dúvida quanto à sua representatividade do universo e do sentir - haveria um muito maior compromisso recíproco entre eleitos e eleitores, e a responsabilização era também maior para quem vota.

 

Mas, até ao momento, discute-se muita coisa, sobretudo o passado. Mas fala-se pouco do que se pode melhorar no futuro.

 

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publicado às 03:46

Santa Casa de Alvalade

Esfinge, em 12.05.19

 

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Escrevi recentemente sobre uma mania que é frequente nas contratações do Sporting para o futebol: somos uma casa milagreira, por isso não há antiga "jovem promessa" do futebol mundial que não passe por cá na tentativa da carreira ficar recuperada. Desde o Tomas Skuhravy até ao recente Vietto, as direcções do Sporting, todas elas sem excepção, vão enfiando estes barretes.

 

E, com muitas honrosas excepções (Coates), tem dado asneira e prejuízo.

 

Mas faço uma simples pergunta, tão rápidos somos a dar a mão a quem vem de fora, porque demoramos tanto a apostar em quem de cá saiu?... Neste particular falo de Rúben Semedo. Na sua primeira época a titular fez uma excelente dupla com Sebastián Coates. Depois perdeu algum gás, mas acabou por sair por cerca de 14 milhões de euros (excelente negócio).

 

Fez asneiras graves, andou aos caídos e voltou a Portugal, para o Rio Ave. Aparentemente estabilizou e ganhou maturidade na vida fora do campo. E isso reflecte-se: tem sido titular, tem ganho confiança (2 golos marcados em 12 jogos), as qualidades que lhe reconheciam têm vindo ao de cima. Foi expulso na última partida, mas são incidências de jogo.

 

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De certeza que não seria uma contratação cara, nem terá um salário alto - sendo um risco baixo. E, se correr bem, o Sporting ainda poderia voltar a ganhar dinheiro com o jogador. Este de certeza que ficaria agradecido por uma nova oportunidade no Clube de formação e coração.

 

E,  ao contrário de outros que fazem hoje parte do plantel, nunca desmereceu o Clube. Há coisas que não esqueço - gratidão e ingratidão são algumas delas.

 

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publicado às 05:03

Luiz Phellype e Luciano Vietto

Esfinge, em 10.05.19

 

Estas duas contratações demonstram duas lógicas diferentes no reforço do plantel.

 

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Luiz Phellype tem 25 anos, está desde 2012 no futebol europeu, tendo começado no Standard de Liége, e perfeitamente adaptado ao futebol Português (136 jogos, 47 golos, além de 32 jogos e ainda 13 golos no campeonato angolano). Com experiência, com boa ética de trabalho, mas ainda jovem o suficiente para poder evoluir e ser rentabilizado tanto ao nível desportivo e financeiro. Algum risco desportivo, mas ainda assim com um baixo risco financeiro: custou cerca de 500 mil euros, e presumo que o salário deva estar abaixo da média. Faz-me lembrar em algumas coisas o Slimani – se corresse bem, era um grande negócio e se corresse mal, não seria por aí que o Sporting teria um problema – seria fácil emprestá-lo ou vendê-lo sem grandes perdas (antes pelo contrário, passar pelo Sporting ainda é algo que valoriza o curriculum de um jogador). Está a correr muito bem: tem evoluído, ganho confiança, jogos e golos. Foi considerado o melhor avançado do mês de Abril. Do que se diz, o seu valor de mercado é, neste momento, 7 milhões de euros. É aqui que o Sporting deve apostar.

 

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E agora Vietto. As semelhanças são muitas: 25 anos, 136 jogos em Espanha e 22 em Inglaterra, 39 golos). Mas ficam-se por aqui. Metade dos golos marcados por Vietto foram-no em 2014/2015, pelo Villareal, o que lhe valeu dar o salto para o Atlético, a partir de então, e estamos a falar de 4 épocas, o que parecia vir a ser uma carreira interessante transformou-se numa série de empréstimos. Na última época esteve no Fulham, tendo feito 1165 minutos em 22 jogos (cerca de meia partida por jogo) e marcou 1 golo.

 

Desportivamente aparenta ser um jogador em clara perda, que há quatro épocas que não impressiona o suficiente para se afirmar nas várias equipas por onde passou. Quanto ao que diz respeito à personalidade, há relatos de não ser um profissional sério. Em termos financeiros, parece que Vietto vem embrulhado num negócio cozinhado por Mendes para resolver a venda de Gélson do Atlético para o Mónaco. E, como tal, implicará uma avaliação de cerca de 6 milhões de euros, para além de um salário a rondar os dois milhões de euros líquidos por ano – durante cinco anos.

 

O retorno financeiro de um jogador destes é mais complicado por estes dois factores – ou seja, por cada ano desportivo, ao valor do passe, é preciso acrescentar 4 milhões – o que significa que, em condições ideais, Luciano Vietto, com 30 anos, deverá valer, pelo menos, 26 milhões de euros. O que, atendendo ao momento da carreira do jogador, parece muito improvável. Portanto, a única possibilidade deste negócio correr bem, é Vietto fazer uma grande época o mais depressa possível e ser vendido o mais depressa possível.

 

É provável? Pelo que já se disse atrás, a carreira tem sido de claríssima perda. Portanto, este é um negócio de elevadíssimo risco, com pouco para correr bem e muito para correr mal – e é sempre nesta perspectiva que temos de ver os negócios – e se correr mal, quanto se perde? O Sporting arrisca-se a empatar 26 milhões num jogador em perda. E o Sporting pode perder 26 milhões? Não. Destes negócios o Sporting deve fugir.

 

Até porque, em termos de balneário, não deve gerar bom ambiente, e sendo o futebol um desporto de equipa, tem efeitos. Vietto vale 6 milhões de euros e ganha 2 milhões de euros. Então quanto deveria ganhar Luiz Phellype a valer 7 milhões? E Bas Dost a valer perto de 30? E Raphinha a 6,5 milhões?

 

Gostava muito que se tivesse aprendido com o que aconteceu num passado assim não tão distante quanto isso. Os investimentos feitos em Pongolle, Bojinov, Elias, Bouhlarouz, das consequências a longo prazo desses negócios, vendas abaixo do preço de custo, os elevados salários assumidos apesar de não contarem nem para o totobola - e, muito provavelmente, o desconforto que é para trabalhadores verem outros colegas de profissão a ganharem muito mais sem correspondente retorno desportivo.

 

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publicado às 13:30

"Apostar na formação"

Esfinge, em 24.04.19

 

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Quero agradecer a honra do convite para escrever no Camarote Leonino. Ter o nome (ou pelo menos o pseudónimo) ao lado de quem já tanto deu pela causa verde e branca, é uma responsabilidade. A devida vénia. Espero ter reflexões que possam interessar aos muitos leitores.

 

Marcel Keizer era um absoluto desconhecido para 99 por cento dos adeptos de futebol. Aquando da sua escolha, a Direcção vendeu-nos que era um treinador que sabia trabalhar sem acesso a grandes investimentos, com olho para fazer evoluir e potenciar jogadores, apostava em jovens e jogadores desconhecidos, boas metodologias de trabalho e que iria fazer um bom aproveitamento dos talentos da Academia.

 

Trazia no CV ter trabalhado com os jovens do Ajax, uma passagem fugaz pela equipa sénior e pouco mais. Não era um curriculum de sonho. Mas animou-me que, pela primeira vez em muitos anos, o Sporting tinha uma direcção que fazia o que prometia – maximizar a Academia.

 

Perdoem-me agora um muito breve périplo histórico. Na última vintena de anos, várias direcções se apresentaram com o chavão “aposta na formação”, e daqui se construiria o plantel sénior e o sucesso. Invariavelmente era algo que acabava rápido e sem seguimento.

 

Verificam-se honrosas excepções: 2001/2003 (Boloni, com Quaresma, Viana, Custódio, Ronaldo), 2005/2010 (Paulo Bento com Rui Patrício, Miguel Veloso, Pereirinha, Nani, Yannick, Adrien, Carriço), e 2012/2013 (Leonardo Jardim, com William, Dier, Ruben Semedo, Salomão, Esgaio, Mané).

 

Até passo por cima do pormenor de que, em quase todos estes casos, o investimento se dever mais a contingências orçamentais do que a uma convicção fervorosa na importância do ciclo virtuoso Academia-Plantel Sénior (a Academia fornece talentos ao plantel sénior que os potencializa desportiva e economicamente, e a evolução que o plantel sénior permite aos jogadores formados na Academia, serve de atração a mais jovens talentos para a Academia).

 

Mas terá Keizer cumprido com o que foi prometido? Terá Keizer apostado na juventude e na Academia? Vou usar como critério de aferição o número de minutos jogados. É um critério falível, porque ignora parte importante do trabalho de um jogador de futebol, que é invisível para nós: o quotidiano dos treinos, o saber estar, o nível de ética profissional, o compromisso, a responsabilidade. Ainda assim, sem minutos não se fazem jogadores.

 

Ora, desde o início desta temporada, os jogadores do Sporting já jogaram, no total, 48.308 minutos, e dou de barato que Keizer não é o treinador desde o início da temporada. Mas os números valem ainda assim por si.

 

Este ano, da Academia, poderiam evoluir no plantel sénior: Jovane, Miguel Luís, Thierry, Pedro Marques, Bruno Paz e, até, Geraldes. Até ao momento, todos estes jogadores juntos tiveram 2.069 minutos, ou seja, 4,28% do tempo disponível:

 

  • Jovane - 1.197 minutos (2,48%)
  • Miguel Luís - 765 minutos (1,58%)
  • Thierry Correia - 42 minutos (0,09%)
  • Pedro Marques - 31 minutos (0,06%)
  • Paz e Geraldes - 17 minutos (0,04% cada)

 

Só para comparar: Marcelo jogou 180 minutos, Castaignos tem 119 minutos, Misic 73 e Petrovic 911 minutos.

 

Assim, e na diagonal, os dados disponíveis aparentam mostrar que Marcel Keizer não é um grande amigo da nossa formação. No que é mais um, numa longa tradição, dos que dizem uma coisa, e fazem outra. Mas cada um tira as suas conclusões.

 

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publicado às 15:50

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