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Pão e circo

Naçao Valente, em 12.05.20

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Podemos viver sem futebol? Teoricamente sim, mas na prática, na vida do dia a dia, é complicado. Há um velho ditado que diz que nem só de pão vive o homem. Verdade incontestável, sendo igualmente certo que sem pão não se vive. Mas para além disso, o homem vive também de circo. É assim desde tempos imemoriais, com grande expressão a partir da Antiguidade. A componente lúdica da vida, que acompanha a manifestação das emoções, sempre assumiu uma expressão fundamental no quotidiano da humanidade.

O futebol, ou outros desportos de massas, conforme as preferências, por países, são o circo dos tempos contemporâneos. Desempenham a função que este desempenhava no tempo antigo, canalizando as emoções para fora das actividades profissionais e políticas. Criando um enorme espaço marginal para descarregar frustrações, esquecer dificuldades, exprimir agressividades. Esse papel é desempenhado pelo futebol, com as rivalidades, muitas vezes doentias, expressas nos campos, e mais recentemente na comunicação social.

Mas com a evolução tecnológica, com o refinamento do sistema capitalista, o futebol ao contrário do circo antigo, tornou-se em mais uma indústria privada que produz mais valias financeiras. No fundo, são sustentadas pelos seus espectadores, seja através de pagamento directo, ou indirecto, dando corpo e sustentabilidade a outras grandes indústrias, as redes de comunicação e a publicidade.

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Deste modo, é impensável a falência do futebol. Para além do óbvio papel que desempenha no condicionamento das massas populares, tem uma relevância muito determinante no sector económico. Pelos postos de trabalho directos e indirectos que promove e mantém, pelos rendimentos que propicia aos cofres dos Estados. 

Daí a grande preocupação do poder político, envolvendo-se, apesar dos riscos sanitários, com o recomeço dos campeonatos interrompidos. Os clubes precisam do financiamento pelos operadores de conteúdos, como de pão para a boca. E para estes, sem circo não há pão. Isso explica, à saciedade, a urgência de retomar a actividade, com os riscos inerentes. Os estados modernos não podem como os antigos financiar o circo, dada a multitude de outras e emergências.

Por fim, será que esta grave crise sanitária com os seus condicionalismos e consequências provocará mudanças na organização do futebol? Será que os malefícios desta indústria, que atrai para o seu dirigismo global o oportunismo, a irresponsabilidade, a ilegalidade e a corrupção, serão substituídos por comportamentos mais virtuosos? Pelo que conheço da natureza humana arriscaria dizer que não.

E se numa primeira fase, terá de haver alguma contenção nos gastos, nomeadamente na especulação de passes de atletas, logo que a situação normalize vai ser tudo como dantes. No nosso circo caseiro os chamados 'três grandes' vão continuar a hegemonizar as receitas televisivas. Neste mundo cão, igualdade e solidariedade são palavras meramente vãs. O futebol precisava de outras mentalidades. O mundo pode ser feito de mudança, mas o pão e o circo vão continuar, como sempre, apesar de metamorfoseados.

publicado às 03:04

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Dia de dentista

Uma massa que cai, uma falha no sorriso, as palavras que escapam pelo buraco, aberto no centro da boca. Fazer o que? Aguentar. Antes, ainda tinha as mãos delicadas de uma dentista a manipular as brocas. Mas a jeitosa foi para Holanda e deixou-me em estado de orfandade. Agora, quando me esparramo naquela cadeira, tenho à frente um doutor barbudo.

A única coisa que temos em comum é a paixão pelo mesmo clube. Nos preliminares do trabalho, dá-me dois dedos de conversa sobre os jogos, as tácticas, as arbitragens que perseguem o Sporting. Tudo o que se discute até à exaustão em programas de televisão em hora nobre.

Entrei no consultório e fui recebido com um sorriso pelo doutor e pela sua assistente. Aparentemente estava a correr bem. Pergunta da praxe:

-Então em que posso ser útil, disse o doutor Esperança...
Limitei-me a abrir a boca.

-É pá, sem esse dente, parece mesmo um arrumador de carros.
Risos da Assistente. Afinal, enganei-me, quando pensei que ia correr bem. Então o gajo, quer dizer o doutor da mula ruça, confunde-me com um arrumador de viaturas, e di-lo nas minhas fuças. É para isso que lhe pago, e bem. Ultrapassou o espectável. Eu tenho respeito por todas as profissões, incluindo a dita cuja. Mas todos sabem que essa está associada a drogas leves, médias e duras.

Ser arrumador vá que não vá, agora consumidor de produtos proibidos, deixou-me à beira da apoplexia. Sou um cidadão respeitador das leis da República. Já não tenho idade para isto. Limitei-me a fazer um sorriso amarelo. Ao fim e ao cabo ele é que tem as brocas. Acondicionei-me e nem um grama de conversa sobre futebol lhe dei. Que vá fiar borra para o raio que o parta.

O pior estava para vir. O doutorzinho depois de olhar para a minha ficha, continuou no mesmo registo:
-É pá, nasceu na década de quarenta. Tem x anos, já tem a idade até à qual eu espero viver.

A idade até à qual eu espero viver? Mau, mau. Querem ver que o finório me acha já fora do circuito. Uma espécie de múmia ressuscitada. Tudo é possível nesta vida. Bem, eu juro que vi um defunto que saiu do palácio de Belém, e julga que está vivo, ou então, é um holograma. Ainda há pouco tempo apareceu armado em escritor de assuntos de maus costumes, maus fígados e piores bofes. Literatura top. Por enquanto não é esse o meu caso. O doutor continuava imparável:

-Tenho uma doença muito grave. Tenho tensão alta. Agora o senhor ainda vai chegar aos cem.

Tensão alta? Isso hoje é um distúrbio controlável. Portanto ele que se cuide. Apesar de me considerar fora de prazo, um fantasma a arrumar carros, entre duas passas, desejo-lhe longa vida. Mas se a sua previsão se concretizar não estou preocupado. Dentistas há muitos. A estória de chegar aos cem, pelo dentista, numa de dar uma no cravo e outra na ferradura, fez-me recordar coisas que tinha esquecido, e que se passaram quando ainda era jovem.

Estava num período mó de baixo... (a garina com quem andava trocou-me por um sexagenário), quando me passou pela cabeça consultar um Quiro Astrólogo, que descobri num anúncio de jornal. O indivíduo, estudou-me as linhas da mão, mediu a linha da vida com um transferidor e depois, assertivo, sentenciou: “casamento garantido no ano tal, doença grave na idade Y e esperança de vida até aos X anos. Tudo comprovado com certidão passada e assinada.

Fiquei agradado. Para mais, ainda me restavam quarenta anos deste lado da barricada. O problema é que o que antes era muito tempo, é agora cada vez menos. Estou mais inclinado a esquecer o Astrólogo e aplicar a expressão “só Deus sabe”. E que não se meta o dentista armado em adivinho para emendar a mão. Cem anos não são nada no oceano do tempo.

Chegou a hora de abrir bem a boca e ficar calado. Enquanto punha molde, tirava molde, a conversa mudou de alvo e prosseguiu com a diligente assistente.

-Ó Ercília, você tem que se cuidar mais, está cada vez mais curvada. Eu até tenho visto, na televisão, o anúncio de um colete especial que põe os corcundas direitos que nem um fuso. Ou então, porque não vai para a ginástica correctiva.

-Nem pensar doutor, disse ela, sempre a rir. É um problema de família. Com a idade todos ficamos assim. Ninguém foge ao seu destino.

Às tantas, a Ercília deve pensar que é descendente de algum corcunda famoso, talvez do de Notre Dame, que se tornou conhecido nas páginas do livro de Victor Hugo. Mas aposto que não foi aí que ela o conheceu. Mais certo ter sido no filme de Walt Disney, que deve ter visto na juventude, numa sala de cinema, de mão dada com o seu namorado “ó mor aquele ali parece mesmo o meu avô” .

-Senhor José, disse o doutor Esperança, cuspa e bocheche, por hoje está despachado. Volte daqui a quinze dias para continuarmos o trabalho.

Despedi-me e saí sem dizer palavra. Nas grandes tormentas, uma pequena saída limpa, é como uma grande vitória. Senti-me livre e feliz. Tinha estado à beira de ser arrumador, fantasma, e possivelmente corcunda, e pior, não poder escrever a crónica do Cota-Diano

publicado às 17:00

Um clube de tolos?

Naçao Valente, em 28.04.20

No ano 2000, em Dezembro, o técnico (Mourinho) esteve bem perto de suceder a Augusto Inácio e tudo estava acordado com o emblema de Alvalade. No entanto, Luís Duque, na altura presidente da SAD, voltou atrás com a decisão, face à opinião dos adeptos.

"O Duque ia anunciá-lo no Sporting depois de um treino, mas adiou devido ao impasse e críticas dos adeptos. Depois tudo caiu por terra e eu estava com o Mourinho e ele só disse ‘Mas está tudo tolo?’ completamente irritado", referiu.

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   ‘Mourinho: Derrière le Special One’ o novo livro de Nicolas Vilas

Estas informação é só por si bastante significativa e dispensava comentários. Mas pareceu-me interessante fazer uma breve reflexão.

Será o Sporting um clube de tolos?

A resposta é não... No entanto, se perguntarmos se existem tolos no Sporting, temos que admitir que sim, como aliás se verifica noutros clubes e na sociedade. Estou convencido que serão uma mera minoria ruidosa, e que, ao contrário da maioria silenciosa, tem tido influência perniciosa na longa vida da nossa colectividade, como aconteceu na contratação falhada de Mourinho.

Uma outra constatação que se pode apurar é que a espécie humana nem sempre aprende com os erros. Ainda recentemente o Sporting passou por um período de tolice, com apoio dos verdadeiros tolos e de outros que pela sua ingenuidade se deixaram enganar. Como foi possível acreditar que alguém sem currículo profissional e de vida, tinha perfil para dirigir uma instituição, como o Sporting Clube de Portugal? Pior. Como é possível insistir na mesma solução?

Dir-me-ão, que isso são águas passadas. Aparentemente são, mas na realidade não é tanto assim. Os tolos, que mesmo perante tantas evidências teimam em idolatrar esse ignóbil passado, e manter viva a esperança do seu regresso, continuam por aí. E se durante a grave crise sanitária e económica por que passamos no Mundo, (onde a sobrevivência dos clubes é bem evidente), estão um pouco mais discretos, não desistiram e apenas esperam melhor oportunidade.

Vou dar alguns exemplos. Nos blogues que nas redes sociais assumem a defesa da tolice, a teoria dos ditos tolos continua bem viva. Se não vejamos: aquando do incumprimento do pagamento ao Sporting de Braga da prestação referente à contratação de Amorim, com a alegação de atraso nas receitas programadas, que posição tomaram? Colocaram-se contra a Direcção acusando-a de caloteira. Fosse ela dirigida por um tolo e seria elogiada.

Ao invés, e segundo uma notícia de O Jogo, onde se referia que o Sporting CP não estava a receber os pagamentos estipulados com a venda de Bruno Fernandes, porque a entidade bancária com a qual estava contratado o pagamento, aludia a dificuldades relacionadas com a situação especial que vivemos, quem criticaram? A Direcção, pois claro. Porquê? Porque é incompetente, não pega num canhão e não assalta essa instituição. Estivesse um tolo na presidência e já o teria feito. Mas como não o temos, voltaram à velha cantilena da demissão dos órgãos sociais, como se tivesses em tempo de continuar a brincar às tolices. Mas continua tudo tolo?

Estes exemplos fazem ver à sociedade porque é que o nosso nobre Clube não estabiliza. Não somos um Clube de tolos... mas um Clube onde os tolos insistem em manter viva a prática da tolice. Porque o verdadeiro tolo gosta mais dela do que do próprio Clube.

P.S.: A propósito do tema deste texto, lembrei-me de uma discussão a que assisti em 1976 sobre o ataque bombista à embaixada de Cuba, em Lisboa. Dizia um militante comunista:

-Agora os russos deviam vir cá bombardear-nos.

Respondeu o seu interlocutor.

-Afinal você é português ou russo?

Para bom entendedor.

publicado às 04:05

Capitães de Abril

Naçao Valente, em 25.04.20

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Faz 46 anos. Na minha memória esse dia de Abril, no qual tive o privilégio de participar, continua bem vivo. Aqui deixo esta singela homenagem aos militares que ousaram pôr fim à ditadura.

Capitães do meu país
Soldados da minha terra
Viram o povo infeliz
E com paz fizeram guerra.

No alvor da madrugada
Acordaram a cidade
E sem nunca pedir nada
Ofereceram liberdade.

No força que idealizaram
Esperança de mil cores
Quando as armas dispararam
Delas saíram flores.

E no seio da revolução
Nasceu uma democracia
E com ela a convicção
Que é real a utopia.

E quem nunca viu Abril
Nem sabe a revolução
Urdiu artimanhas mil
Subjugou a nação.

É tempo de ir para a guerra
E levantar a cerviz
Ó gentes da minha terra
Capitães do meu país.

publicado às 19:30

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O baile

No tempo em que o proverbial engate fazia parte do meu quotidiano, fui convidado por companheiros de “route” para um baile particular, numa espécie de salão de bombeiros. O intuito era reunir malta jovem, vinda de distantes regiões do país, e que vivia numa zona da cidade grande, para tirar, num corpo a corpo ritmado, um sarro com umas macacas, expressão usada por um amigo meu, o Joaquim, creio que com sentido carinhoso.

Na hora marcada compareci com a minha turma para dar o anunciado pé de dança. Diz o ditado que homem pequenino ou é velhaco ou dançarino. Mas como em tudo, nos ditados também há excepções, pois velhaco não me considero e dançarino também não por mais que me esforce. Ainda fiz um curso rápido para dar um arzinho de bailador, mas sou mesmo duro de ouvido e pé de chumbo, e nessa área da dança deixo muito a desejar. Seja como for, e como era uma excelente oportunidade para engatar gajas lá fui cheio de expectativas.

Estava meio perdido no meio do “maralhal” quando o meu amigo Joaquim se aproximou e me disse:

-vai em frente Zé; está ali uma macaca desocupada.

Enchi o peito de ar deitei borda fora de mim a maldita timidez, e lá fui em direcção à dita macaca: ---   -vamos dançar?

-não, a não ser que tires esse emblema que trazes na lapela.

-nem pensar. É o emblema do melhor clube do mundo. Porque é que te incomoda?

-não danço com "lagartos". Arrepia-me. 

O organizador do convívio social que assistiu à cena toda, caiu logo em cima dela (salvo seja) criticando a sua pobre atitude: “ouve lá, mas que mer.. é esta? Vens para aqui para dar “tampas”? Isto é uma festa familiar, e sem clubites. Mas que raio de palavra é que não percebeste? A garina enrolou a "ganforina”, baixou a bolinha e deu o dito por não dito: “vamos lá dançar”.

Passou-me um "vaipe" pela tola, um homem tem o seu brio, e disse para a tipa, ainda por cima anorética, ou como se dizia na época, um pau -de -virar -tripas. E também "galinha" , embora esse não fosse critério, pois sou liberal nos costumes.

-Não quero dançar contigo, e não dançaria nem que fosses a Gina Lollobrigida.

Para as novas gerações, convém esclarecer, que a Gina é uma actriz italania, muito famosa nesse tempo, e que tinha mais curvas por metro quadrado que a antiga estrada do Marão. E quem se importaria de se estampar naquelas curvas?

A trinca-espinhas nem sequer sabe o que perdeu por se armar em carapau de corrida. Se me tivesse dado bola, quem sabe se aquela dança não acabava no altar. Na altura andava muito carente e como náufrago à deriva agarrava-me a qualquer destroço que aparecesse. Assim lá ficou de monco caído sem ninguém que lhe aquecesse os ossos.

A festa começou a ficar algo chata e com o meu grupo resolvi dar de “frosque”. Entrámos no meu “coupé” para rumar a outras paragens. Quando nos afastávamos do local vimos sair do baile sem honra nem glória, a magricela benfa. Parei o coupé (também na altura instrumento de alto engate) e fiz um sorriso cínico. (se calhar sou mesmo velhaco) A moça enraivecida aproximou-se e deu dois pontapés na viatura.

Partimos, e nunca mais a vi, nem mais magra (quase impossível) nem mais gorda. Houve outras danças e contradanças, mas hoje presto-lhe a minha homenagem. Em tempos de falta de assunto saltou-me do fundo da memória para me alimentar o vício da escrita, essa droga que causa tanto prazer como a “heroína”. Quem diria que passados tantos anos um simples “não” deixou de significar traste para significar heroína. São muito estranhos os caminhos da literatura.

P.S.: No dia do livro, lembro que a leitura faz muito bem.

publicado às 19:00

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Fui às meninas...e gostei.

As meninas estavam referenciadas, como altamente competentes no seu mister. Marquei o encontro por telefone. Apresentei-me à hora combinada. Toquei à campainha do número 69 de um espaço dúplex. Abriu a porta uma menina de grandes e profundos. olhos pretos. Fixei o tamanho desmesurado das pestanas. Pestanejou.

-Olá, disse. Chamo-me Diano…

-Oi, disse a moça, com sotaque abrasileirado.. Estávamos à sua espera. Seja bem-vindo. Faz favor de entrar. Sente-se e espere um momento.

Fiquei à espera numa salinha, com ar acolhedor. Paredes de cores neutras, uma pequena secretária, um maple de aspecto confortável, onde me sentei. A menina com ar de mestre-de-cerimónias pegou num telefone e anunciou.

-Podes vir. Já chegou o cliente.

Pouco depois apareceu outra moça. Chamou-me a atenção, o cabelo curto, e cor de fogo Ao aproximar-se notei algo invulgar. Os olhos tinham cores diferentes. Um era azul mar, o outro, um azul mais esverdeado.

Olá, é o senhor Diano. Que caso curioso... Eu sou Diana, mas todos me tratam por Di. Acompanhe-me.

Segui a menina por um corredor com várias portas. Introduziu-me num espaço com uma cama, uma cadeira e uma pequena mesa.

-Esteja à vontade, disse Di, com um aberto sorriso que deu para ver uns dentes bem alinhados. É a primeira vez?

Não menina Di, retorqui. Ou melhor, aqui neste lugar é a primeira vez. Como é óbvio, já tenho idade suficiente por ter de passar por estas experiências.

-Okey, Diano. Pode despir-se e deitar-se. Vamos começar por uma massagem relaxante. Depois vai sentir a temperatura a subir um pouco. Faz parte.

O pudor é uma maldição que se nos cola à pele há gerações. E por mais modernista que queiramos ser... não lhe conseguimos fugir. Despir-se perante estranhos causa sempre algum constrangimento. É certo que me tinha preparado bem. Tomei um banho com sais perfumados, mas com toque masculino, como aliás deve ser. Untei-me com cremes para apresentar a pele sedosa, mas hesitava. A expressão serena da moça descontraiu-me. Aproximou-se para me ajudar. Reparei então nas suas mãos, pequenas e finas, com umas unhas bem tratadas. Talvez unhas de gel, decoradas com variados motivos, incluindo um emblema do SCP. o maior clube do mundo. Bom gosto. Prometia.Vestia uma espécie de bata, discretamente cintada e abotoada a frente. Decerto adequada à função.

-Prefere que me deite de costas ou de frente? Perguntei

-Para começar fica de barriga para baixo, temos qua aliviar a tensão lombar. Sem isso nunca se consegue atingir a descontracção física e mental para um bom desempenho. Depois vamos mudando para outras posições.

Debruçou-se sobre mim e começou a sua tarefa. Estava a ficar agradado. Parecia-me estar nas mãos de uma verdadeira profissional, bem preparada para a sua função. E que mãos, posso dizer. Foram percorrendo, com enorme sabedoria, a pele e os músculos como se os conhecessem na intimidade. A continuar assim talvez o nirvana estivesse próximo. Fechei os olhos e deixei-me levar. Nestas coisas, palavras só atrapalham. Apenas ouvia a sua respiração. Apenas sentia o discreto perfume da sua juventude.

-Está a ficar mais aliviado? perguntou Diana

-Quase aliviado. Está a ir muito bem. Pode continuar.

Quando terminou, abri os olhos e vi Diana sorridente e confiante no seu trabalho.

-Venha amanhã à mesma hora.

-Já amanhã? Outra vez?

-Claro, cavalheiro. Nestas coisas o mínimo são dez dias seguidos. Vai ver que aguenta.

Depois de tudo o que se passou, tenho de confiar na Diana. Garanto que saí mesmo muito aliviado. E recomendo o serviço das meninas, a quem precisar. Uma tendinite não é pera doce. E agora até já posso voltar a teclar para escrever a crónica do Cota-Diano.

publicado às 19:00

Crónica do cota-diano, do tempo sem futebol

Naçao Valente, em 14.04.20

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O massagista "lampiónico"

Há quem diga que a idade está na cabeça, mas o corpo passa ao lado de teorias e segue a normal marcha da natureza. Por mais que diga ao meu esqueleto que não seja queixinhas, que não se deixe abater apenas por uma dorzinha aqui, uma ardor acolá, um mal estar "acoli”(aiaiai) não me ouve. Não ouve mesmo.

Vai daí, por mais que diga ao meu ombro que não ligue ao protesto dos tendões, e ao seu choradinho, o facto é que não se cala. É pior que bebé chorão. E tanto me chateou que lhe fiz a vontade e levei-o ao massagista.

Estava sentado na sala de espera, com direito a senha e a ecrã plano de televisão, quando saiu do gabinete de massagens um paciente seguido do de um matulão “praí” de um metro e noventa. Reparei nas manápulas que saiam das mangas da bata branca. Era o homem das massagens. Mandou-me entrar, e depois de um breve diálogo, pediu-me para me deitar, em cima de uma marquesa. Foi então que reparei numa faixa vermelha e branca, colocada na parede em frente,onde se lia SLB. Se tivesse visto antes, de certo que tinha saído, sem dar cavaco. Mas era tarde.

-Dispa-se, deite-se de bruços e imagine que está em cima de uma marquesa de verdade, disse.

Nada mal para começo de tratamento. O cavalheiro mostra sentido de humor, embora brejeiro. Aceito, como processo de descontrair o paciente e criar proximidade.

Palavras não eram ditas comecei a sentir a delicadeza das manápulas no meu lombo. Pancada de criar bicho. Aguenta por seres queixinhas, disse no recesso da intimidade corporal. Até a marquesa gemeu, mas foi de dor.

-É pá, a sua coluna tem mais curvas que a estrada do Sabugueiro. Ainda é muito novo para estar neste estado. Não faz desporto? O SLB tem um ginásio à sua espera.

-Não sabe, mas eu não tenho tempo disponível, e além disso sou sportinguista, atrevi-me a dizer.

- Ai é? 

Agarra-me no braço puxa, puxa, roda, roda, de tal modo que este parece uma ventoinha a sair do eixo. Será que ainda está agarrado ao corpo?

-Não sou assim tão novo, respondi timidamente. Pelo menos já tenho idade para ter juízo e não me meter nestas alhadas, pensei…

- Sexagenário? Não lhe dava essa idade! Se tirar as banhas e pintar o cabelo, até parece um jovem. ---Sabe o que lhe digo? Saia do sofá, vá caminhar, olhe para as gajas, para as novinhas claro, vai-se sentir melhor, e até ainda muda para o "glorioso".

- Pró glorioso, nem morto, balbuciei,  mas logo me arrependi.

O braço ainda está no seu lugar. Até ver. E vem mais pancada. Agora dá-me um apertão tão forte na carcaça que senti que o esqueleto se separava da musculatura. Se é que ainda tenho esqueleto no verdadeiro sentido do termo.

- Pois é…coluna toda empenada…é uma pena. Caminhe…olhe para as tipas…velhas não…faça sexo…endireita a espinha e outras coisas, como o ânimo, bem entendido, sentencia o massajador.

Nem dou troco à conversa. Palavras para quê? Quero é que o matulão acabe, para sair dali, mas continua e volta ao braço,

Roda, roda, roda, roda
Roda, roda, sem parar
Tanto roda, tanto roda,
Que ao lugar há-de voltar

Porra, além de torturador também é versejador. Deixo-me levar na onda para ver se o tempo passa. Mentalmente vou dizendo,

Soda, soda, soda, soda
Soda soda sem parar
Deixa-me o braço num oito
E ainda tenho que pagar.

Quando nada o fazia prever, volta o apertão da ordem. Desta vez penso que me vão sair as miudezas pela boca, mas vá lá, ainda conseguiram voltar ao seu sítio, ou quase.

-É o que lhe digo, comece por caminhar cinco quilómetros, dez quilómetros e depois sexo. Tem que ser, você parece um puto, tem que viver como tal…

-Puto que o pariu. Quilómetros e quilómetros de sexo. Mas onde é que eu estou? Numa sala de massagens, numa câmara de tortura,  num consultório de sexologia, ou numa sucursal do "benfas". A medo arrisco dizer: “não se atrase, tem muita gente à espera”.

-Terminámos e não se esqueça dos meus conselhos. Aplique a minha receita e não se arrependerá.

Uff! Vamos lá ver, se ao menos consigo caminhar. Quanto ao resto logo se vê. Bem, se alguém tiver um corpo queixinhas, ou de certo modo achar que exagero, tenho o cartão do fulano e recomendo. 

Palavra do cota-diano

publicado às 21:30

A nau e os piratas

Naçao Valente, em 10.03.20

O Sporting CP faz lembrar uma nau a navegar num mar encapelado. Essa navegação que começou à cerca de ano meio, tem sobrevivido com uma espécie de navegação à vista. Os rombos que sofreu no quase naufrágio de 2018 têm sido difíceis de tapar. Os timoneiros tiveram como principal preocupação não deixar a nau afundar. A tripulação, com alguma serenidade, foi tapando as maiores brechas para que a água não entrasse. Tarefa difícil mas bem conseguida.

No primeiro ano houve uma aparente acalmia, no segundo depois de sucessivas mudanças de pilotos, para tentar levar a nau a porto seguro, sem o resultado pretendido, surgiu outro perigo que sempre esteve latente, mas que se encontrava na expectativa de poder actuar. E porque umas vezes por culpa dos timoneiros, outras por culpa dos pilotos, houve alguma oscilação, os piratas saíram das seus esconderijos para a tentar ocupar de novo. 

Os piratas saídos da bruma, após manobras de diversão, pensaram que tinha chegado a hora do ataque final. E aí estão, na sua plenitude, com perna de pau, olho de vidro, cara de mau e faca nos dentes, a fazer a abordagem de cara destapada. Como fantasmas saídos do nevoeiro, não respeitam, nem se dão ao respeito.

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Mas que querem estes brunistas de uma nau que navega com dificuldades? Salvá-la? Não! Querem os seus despojos, querem vingança, querem, se for  preciso, afundá-la, mesmo que não possa ser recuperada. Com piratas sem escrúpulos e sem o mínimo de ética, que mais que o timoneiro prejudicam a nau, não pode haver cedências.

Mas está o timoneiro e a sua tripulação no bom caminho? Diria pelo percurso da nau que está no caminho possível? Poderia ter feito melhor? Possivelmente. De certo que cometeu erros, de certo que não acertou nos melhores pilotos. Deseja-se e confia-se que acerte no último, para que a pirataria, não afunde de vez a nau.

Levar a nau a bom porto, não será tarefa muito fácil, Depois dos rombos, dos ataques dos tubarões e das piranhas, a tripulação tem de estar unida, o comando tem de ser reforçado, o rumo tem de ser firme, para a tirar do mar encapelado tem de a levar a bom porto. Salva a nau da pirataria, será a altura de repensar então livremente e sem pressão, quem a deve dirigir.

P.S.: À margem desta alegoria e sobre a crítica feita ao presidente Varandas, em relação à contratação de Rúben Amorim, estou convicto, que este e outros actos idênticos, são da responsabilidade da estrutura desportiva e de toda a Direcção, até pelo investimento que implica. Por isso espero que corra bem, e que obrigue os "marretas", que na comunicação social prevêem cenários catastróficos, a meter a viola no saco.

publicado às 02:34

Primeiro estranha-se, depois entranha-se

Naçao Valente, em 06.03.20

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Fernando Pessoa, que não sei se ligava ao futebol, para além da poesia, escreveu o slogan para promover um refrigerante novo em Portugal, e que é,  "Primeiro estranha-se, depois entranha-se". E, com convicção ou não, acabou por estar certo.

Quando se contrata um treinador de futebol, e um pouco conhecido, enquanto tal, não se sabe se vai entranhar-se ou não. Para já, para muitos sportinguistas, apenas se estranha. Fazendo um esforço para ser isento, focando-me apenas no acto e no seu contexto, e não em pressupostos em relação a quem o toma, prefiro assumir a expressão na sua totalidade.

A decisão de contratar Rúben Amorim, por mais especulações que avancemos, só obedece às motivações de quem a tomou. Podemos dizer que foi desespero, podemos afirmar que é de grande risco, podemos dizer que é deveras ousada, e o mais que nos vier à cabeça. Mas a verdade é que certamente foi ponderada, discutida, avaliada, por quem tem legitimidade para a tomar, até porque implica a disponibilidade de uma verba muito significativa. Neste sentido, parece-me de bom senso dar, no mínimo, o benefício da dúvida.

A vantagem ou desvantagem da bondade desta contratação, ou de outra, nunca se deve avaliar à priori. As avaliações feitas deste modo, valem o mesmo que os prognósticos dos resultados de jogos, com uma agravante, ou é por revanchismo ou por má fé. Tanto mais que a história recente do Clube está cheia de más decisões, já comprovadas. Se este acto de gestão desportiva foi bom ou mau saber-se-á a seu tempo, e só então poderemos apurar consequências.

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Pode-se dar um bom número de exemplos de decisões que correram mal - que são por de mais conhecidas - que geralmente passaram incólumes e sem o mínimo de contestação. O problema é que a memória é muito curta, e a avaliação sempre subjectiva e à conveniência.

Outra questão discutível é a ética desta aquisição, retirando o técnico ao clube para quem trabalhava, embora com base nos regulamentos, mas sem o seu acordo. O presidente desse clube pelos vistos rejeitou qualquer negociação e mostrou não querer perder o treinador neste momento... se estava a ser sincero. Nesse aspecto, tenho que referir, que não me parece muito correcto e que esta norma devia ser revista.

Mas concretizada a contratação, de acordo com as regras em vigor, Rúben Amorim, que aceitou o desafio (não foi obrigado a tal) como um passo em frente na sua carreira, é o treinador do Sporting, e precisa de ser bastante apoiado por todos os que põem o Sporting acima de direcções, e que não reagem previamente em função de simpatias, ou das suas avaliações subjectivas. O seu êxito é antes de mais o êxito do Sporting.

P.S.: Admito que a cláusula de rescisão é muito elevada, e pouco comum, mas era a única possibilidade para trazer o técnico de imediato. Fomos informados pelo presidente que será acomodado no orçamento já aprovado para o futebol. E se não há equipas sem bons jogadores, muito menos as há sem bons treinadores. Só o tempo o dirá.

publicado às 14:30

O regresso do 'brunismo' é possível?

Naçao Valente, em 01.03.20

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Procurando ser realista, nunca admiti a ideia de o Sporting poder ganhar a Liga Europa. Só uma muito invulgar conjugação de factores extremamente favoráveis, difíceis de reunir, poderia concretizar essa hipótese. E... mesmo assim, teriam de estar os "astros" todos alinhados nesse sentido.

Mas a continuidade nesta prova era bem possível por mais uma ou duas eliminatórias. Se tivesse acontecido, isso teria tido aspectos positivos e negativos. Teria acumulado mais valias financeiras e dado uma maior motivação à equipa. Ao invés, causaria um desgaste físico num plantel curto e de qualidade mediana, com reflexos na competição interna, onde é importante conseguir o terceiro lugar.

Por outro lado, permitiria à actual Direcção ganhar algum sossego, retirando argumentos à oposição, apenas assentes nos maus resultados. Esta saída extemporânea da Liga Europa, pelas razões que têm sido dissecadas, vai servir aos mentecaptos radicais do brunismo, a quem já se juntam outros adeptos descontentes, aumentarem a contestação, continuando a desestabilizar o Clube, convictos de que o regresso do brunismo é possível.

A anunciada manifestação para o dia 8 de Março, antes de um jogo de futebol, insere-se nessa estratégia. Quanto mais instabilidade semearem, mais dividendos esperam colher. Para esta gente vale tudo. Jogam no desespero e descontentamento geral dos adeptos em função dos resultados e têm em mira aliená-los para a sua causa. A reabilitação do líder deposto está em curso, já de uma forma descarada.

Ainda hoje, numa rádio onde é pregador, o presidente destituido disse com todas as letras que é candidato à presidência do Sporting. Que irá lutar pela sua reintegração como sócio. Para quem tinha dúvidas que este notório oportunista, que deixou o Sporting à beira da falência, queria voltar, como sempre tenho dito, aqui está a prova. E a razão é simples: este personagem não tem outra forma de vida.

Que fique bem claro, que o que move este movimento de contestação, não é o presidente chamar-se Varandas. Até podia ter outro nome, porque perante as mesmas circunstâncias, seria contestado da  mesma maneira. Que fique claro, que o que esta gente alienada quer é repor Bruno e o brunismo. Não lhe interessa mais nada. Que não se iludam aqueles que pensam que com a queda de Varandas se pretende que haja escolha livre. Não, pretende-se mais um golpe, como acontecu no pós-Alcochete. Os cabecilhas destes movimento não têm princípios, valores, ou qualquer moral.

O eventual regresso deste cenário, que ainda me recuso a admitir, atiraria o Sporting para uma decadência imprevisível. Não são sportinguistas, são fanáticos de tipo "religioso" a quem é completamente indiferente as consequências de uma "guerra santa" que em nada se relaciona com futebol. O fanatismo desta gente, para muitos inconsciente, para outros consciente, tem de ser travado. Os sportinguistas iludidos, que tiveram a lucidez de parar a loucura que estava a destruir o SCP, têm de cerrar fileiras. O que está em causa não é esta Direcção, nem meros resultados transitórios. O que está em causa é o Sporting.

Conclusão: as possibilidades objectivas do regresso do brunismo, são muito reduzidas, mas é urgente não continuar a dar motivações a essa minoria.

P.S.1: Esta análise concreta sobre a oposição golpista, não serve de desculpa para os erros cometidos pela Direcção, no aspecto desportivo. É preciso construir uma estrutura forte, com um projecto claro e realista. Esta novela de Silas, sai não sai, de Amorim, entra não entra, já devia ter sido parada pela Direcção, dando total apoio ao treinador até ao fim do campeonato. Mas isso é assunto para outro debate.

P.S 2. : De acordo com os estatutos um sócio excluído pode pedir a readmissão, que tem de ser concedida em AG por dois terços dos votos (Secção V, artigo 29). 

O direito de ser eleito para cargos sociais pertence exclusivamente aos sócios efectivos com pelo menos cinco anos de inscrição ininterrupta na categoria e que nos últimos cinco anos anteriores à data da eleição, pelo menos, tenham pago ininterruptamente as quotas (Secção II, artigo 20).

É considerada como ininterrupta a inscrição de todos os sócios readmitidos se, no acto de reingresso, efectuarem o pagamento total das quotas em atraso, salvo deliberação do Conselho Directivo em sentido diverso.(Secção V, artigo 29).

Desta leitura algo simplificada, pode-se depreender que a readmissão é possível, embora limitada. Depreende-se também que o facto de não ter pago quotas de forma ininterrupta, poderá ser ultrapassado.  

publicado às 05:04

O mais ecléctico dos clubes portugueses

Naçao Valente, em 18.02.20

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*Título extraído de um comentário de Leão Zargo, num post sobre Joaquim Agostinho

O Sporting Clube de Portugal foi fundado por homens que gostavam de jogar futebol, uma modalidade, importada da Inglaterra, mas com muita aceitação no início do século XX. Mas quem consultar a história do Clube encontra logo no período da sua fundação várias outras modalidades, como ténis, atletismo e ginástica. Igualmente curioso é constatar que houve, desde sempre, grande participação de mulheres atletas na vida do Clube, como por exemplo Hortense Roquette.

O Sporting CP é um clube ecléctico, o campeão do eclectismo em Portugal. É e sempre foi. Sendo o futebol como modalidade popular, menos exigente em meios, e portanto acessível a todos os que o quisessem praticar,  depressa se popularizou. Bastava uma bola, às vezes feita de trapos para se reunirem interessados, num espaço mais ou menos amplo, e para se organizar um jogo.

No entanto, outras modalidades foram gradualmente ganhando o seu lugar, captando atletas e competindo ao mais alto nível interno e externo. Não foi por acaso que o Clube ganhou desde muito cedo títulos nacionais e europeus. É uma pena que esta rica história desportiva, não seja mais divulgada, porque é pouco conhecida da gerações mais recentes. Refere-se o ciclismo, que levou ao clube até ao país mais recôndito, o atletismo  com mais de sessenta medalhas internacionais, o hóquei em patins, com oito medalhas de ouro europeias, só para dar alguns exemplos.

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Quando se aprecia a grandeza de um clube, tem que se ter em consideração o papel que desempenhou, não apenas no desenvolvimento e divulgação do futebol, mas no trabalho que foi feito noutras modalidades. Esta herança que vem do passado, mas que continua a estar presente, devia orgulhar todos os sportinguistas, e, diga-se, até os portugueses que apoiam outros clubes.

No Camarote Leonino, ao contrário de outros espaços, dá-se grande relevo a todas as modalidades. Um serviço de evidente valor que se presta ao Sporting e que merece ser devidamente reconhecido. Pena é que muitos dos seus leitores passem ao lado dessa divulgação. Pena é que os adeptos sportinguistas, e de todos os clubes, só vivam focados no futebol, com uma cegueira que não permite ir mais além. Deste modo, o chamado desporto rei, que também sigo com paixão, aliena mais do que liberta, como devia ser a função do desporto.

Os sportinguistas precisam de olhar para o Clube de uma forma mais ampla, valorizando o seu historial, passado e presente, unindo-se à sua volta com a convicção que não somos, de nenhum modo, inferiores aos nossos adversários. E  devemos mostrar que como adeptos de um clube ecléctico, apoiamos o eclectismo.

Isto é o verdadeiro Sporting e não o que hoje pulula nas redes sociais!

publicado às 03:33

Calado é um poeta

Naçao Valente, em 15.02.20

Já aqui escrevi que Frederico Varandas está sozinho nesta luta para resgatar o Sporting do domínio de energúmenos que não representam o Clube e que são a antítese do que deve ser o desporto.

Varandas não conta com o apoio de outros clubes, que têm as suas claques controladas e que utilizam na luta externa. Não tem o apoio do poder político que assobia para o lado. Nem sequer tem o apoio de órgãos do mundo do futebol, que se refugiam numa estranha passividade.

Os chamados notáveis do Sporting com uma ou outra excepção, incluindo ex-candidatos, estão mudos e quedos. E os que se pronunciam é para deitar mais achas na fogueira. Refiro, concretamente, Sousa Cintra, que depois de estar no Tribunal como testemunha arrolada pelo advogado do assaltante Francisco Marques, prestou declarações onde fez feroz ataque à actual Direcção.

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Criticou a precipitada substituição de José Peseiro, e nesse aspecto dou-lhe alguma razão, porque aqui me bati contra a pressão dos adeptos para que isso acontecesse. Foi um erro, mas ao qual associo adeptos e mais uma vez as claques.

Mas agora pergunto: que autoridade moral tem Sousa Cintra para criticar neste aspecto Varandas, quando despediu Robson com a equipa a liderar o campeonato? Que autoridade tem, quando durante a sua presidência de seis anos não ganhou um único campeonato? Que autoridade tem, tendo presente que durante a presidência da SAD aumentou despesa, com conhecimento da grave situação financeira?

Mas o que considero ainda muito mais grave foi a sua obnóxia defesa das claques, depois dos graves acontecimentos que se têm sucedido. Sobre os ataques a pessoas e interesses do Sporting, nada disse. Nem uma mera ténue condenação. Porque é que este personagem de opereta bufa não se cala. Calado é um poeta.

Com amigos destes o Sporting não precisa de inimigos.

publicado às 02:33

Calado é um poeta

Naçao Valente, em 14.02.20

Já aqui escrevi que Varandas está sozinho nesta luta para resgatar o Sporting do domínio de energúmenos que não representam o clube, e que são a antítese do que deve ser o desporto.

Varandas não conta com o apoio de outros clubes, que têm as suas claques controladas e que utilizam na luta externa. Não tem o apoio do poder político que assobia para o lado. Não tem o apoio de órgãos do mundo do futebol, que se refugiam numa estranha passividade.

Os notáveis do Sporting com uma ou outra excepção, incluindo ex-candidatos, estão mudos e quedos. E os que se pronunciam é para deitar mais achas na fogueira. Refiro, concretamente Sousa Cintra, que depois de estar no tribunal como testemunha arrolada pelo advogado de assaltantes, Francisco Marques, prestou declarações onde fez feroz ataque à actual Direcção.

Criticou a precipitada substituição de Peseiro, e nesse aspecto dou-lhe alguma razão, porque aqui me bati contra a pressão dos adeptos para que isso acontecesse. Foi um erro mas ao qual associo adeptos e mais uma vez as claques. Mas agora pergunto: que autoridade tem Cintra para criticar, neste aspecto Varandas, quando despediu Robson com a equipa isolada no campeonato? Que autoridade tem quando durante a sua Presidência não ganhou um campeonato? Que autoridade tem quem durante a presidência da SAD aumentou despesa, com conhecimento da grave situação financeira?

Mas o que considero mais grave foi a sua defesa das claques, depois dos graves acontecimentos que se têm sucedido. O que considero lamentável é que sobre os ataques a pessoas e interesses do Sporting, nada tenha dito. Nem uma ténue condenação. Porque é que esta personagem de opereta bufa não se cala. Calado é um poeta.

Com estes amigos o Sporting não precisa de inimigos.

publicado às 00:55

Golpismo - "Alcochete" continua

Naçao Valente, em 11.02.20

"Trabalhar e vencer no manicómio que é o estádio de Alvalade é obra. Chapeau."

                                                   Alexandre Pais, a propósito do jogo Portimonense/SportinCP

                                                                                                                   Record

"Isto é uma tentativa de homicidio ao Sporting"

                 Rui Santos

Quem pensava que quase dois anos depois do assalto a Alcochete que este episódio estava arrumado, enganou-se redondamente. Alcochete continua bem vivo e presente na vida do Clube. Já é e continuará a ser um infame caso de estudo. Como é que uma minoria de associados/adeptos continua a perturbar o funcionamento normal do Sporting Clube de Portugal? Alguém já lhe chamou um clube de malucos. Pelo menos em relação a alguns a designação parece correcta. O facto é que utilizando outras formas o ataque ao Sporting vai tendo novos episódios.

O que se verificou na recém-manifestação de "antis" com violência gratuita à mistura, é apenas e tão só mais um desses episódios recorrentes. Quem são eles e o que pretendem? Numa aliança oportunista, distingo três grupos que se entrecruzam: as claques Juve Leo e Directivo XXI, os brunistas radicais com alguns descontentes ocasionais, os "abutres" sedentos de poder que na sombra manejam os seus fantoches, sem dar a cara.

Estão unidos num único objectivo em comum... derrubar a Direcção eleita há ano e meio. Mas têm objectivos próprios que os distinguem. As referidas claques com privilégios especiais há anos, que foram reforçados pela Direcção anterior, não se conformam com a sua perda. Lutam pelas regalias que possuíam em relação aos outros sócios, e que para alguns constituía um modo de vida. Lutam pelo poder de "governar" o Sporting CP,  sem mandato legal. Muito para além do apoio ao Clube são antros de vícios, onde se inclui a droga.

A droga, como substância alucinogénia para produzir uma realidade omniparalela, pode assumir outras formas, a que se chamaria de droga psicológica, e que está presente desde os alvores da humanidade na forma de religiões radicais e alienantes. É responsável por ódios e guerras trágicas. Condiciona mentes humanas fracas, criando fantasias que as façam viver numa euforia permanente.

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Um analista televisivo inseriu este comportamento recorrente dos brunistas nesse estado de felicidade artificial, criado pelos seu lider, durante o seu consolado. De facto, Bruno de Carvalho, recorrendo a um veículo viperino de populismo e demagogia, criou um ambiente eufórico, como uma religião, mantendo os seus seguidores constantemente "embriagados" numa felicidade sem correspondência com o dia a dia, e sempre dependente de um paraíso futuro. Embora como psicólogo de bancada a tese parece fazer sentido.

E sendo assim, o que acontece quando se tira a droga a quem dela depende?... Entra-se em período de carência e procura-se readquirir a droga perdida. Daí esta golpada permanente para restituir ao poder quem o faça, assuma a forma que assumir. Para isso, está provado, recorre-se a todos os meios incluindo a violência, inerente a estados de espírito alienados.

O que é que isto tem a ver com o Sporting e os seus interesses? Nada. O que é que tem a ver com resultados? Nada. O que é que tem a ver com o presidente se chamar Varandas ou outra coisa qualquer? Absolutamente nada. Apenas tem a ver com a recuperação da droga perdida, metaforicamente falando. O vício da droga sendo uma doença não se cura com paliativos.

Na sombra encontra-se, cinicamente, o grupo de oportunistas que apostam na degradação do ambiente do Clube, esperando que o poder caia na rua para o apanharem. Que é que isto tem a ver com a recuperação do Sporting? Nada. Tem haver com os seus interesses, e tudo têm feito para desestabilizar, como se provou aquando do lançamento do empréstimo obrigacionista.

É esta oblíqua convergência de interesses que gera o 'caldo de cultura' que alimenta este golpismo. O golpismo tem de ser combatido com muita coragem, mas só isso não chega. É preciso desmacará-lo, com verdade, com transparência, com provas irrefutáveis. É preciso agir com firmeza. Se não for assim é difícil ganhar esta batalha. E quem perde não é a Direcção eleita e com mandato legítimo por quatro anos. Quem perde é o Sporting CP e o futebol em geral. Como no antigo PREC está em causa a democracia. Por ela todos os sportinguistas de boa fé devem lutar.

P.S. : Nos últimos 25 anos o Sporting teve sete presidentes, cinco que não completaram o mandato, e 30 treinadores. Caso para reflexão. Será que o Sporting aguenta muito mais este percurso destrutivo?

publicado às 04:33

O poder da rua (entrevista - 2ª parte)

Naçao Valente, em 09.02.20

Nesta parte da entrevista concedida ao Record, Frederico Varandas abordou vários temas: a contestação, o ataque a Alcochete, as arbitragens, as claques, a bomba dos ilícitos fiscais e os casos judiciais, entre outros. Saliento a ideia expressa de que se o Sporting enveredar por eleições todos os anos, não conseguirá sobreviver. Compreendo a afirmação, no actual contexto, e na sua relatividade, mas não acredito que o Sporting não venha a sobreviver. É uma importante e centenária Instituição com milhões de adeptos, e enquanto assim for, continuará. Mas continuará na degradação que tem vindo a viver.

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Compreendo, assim, esta dramatização do presidente. Nem o Sporting, nem nenhum clube terá futuro numa instabilidade permanente. Nenhum clube será credível num negócio em que tem de mostrar consistência directiva, e garantir a confiança dos meios financeiros. Querer derrubar um presidente do Conselho Directivo apenas porque em determinadas e pontuais circunstâncias, a bola bate no poste ou na trave e não entra, é um disparate, uma irresponsabilidade, um crime de lesa Clube, que precisa de ser travado.

Desde há uns anos que grupos e movimentos minoritários foram ganhando poder, sendo pontualmente responsáveis por quedas de Direcções a fazer bom trabalho, ou até a queda de treinadores com potencial. Estes ditos elementos têm-se sobreposto a direcções eleitas democraticamente, procurando a governância de uma forma paralela o Clube. Um atrás de outro, presidentes eleitos vão caindo, sem terem tempo de implementar um projecto de futuro. Ou se põe um travão a esta deriva populista e demagógica, ou o Sporting irá de derrota em derrota.

Não é democrático nem sequer justo que três ou quatro centenas de sócios, como refere o presidente, possam marcar assembleias gerais com total leviandade. É absurdo que 0,5% de associados consiga paralizar o Clube por este processo. Tem de haver uma revisão dos Estatutos que ponha fim a este patente desvario. O Sporting é dos sócios e dos adeptos, não de uma minoria ruidosa, mas insignificante.

A alteração dos Estatutos que é prevista por esta Direcção há muito que já devia estar em andamento. A requisição de assembleias gerais por dá cá aquela palha, por um número reduzidíssimo de votos, pode tornar o Sporting CP ingovernável, por grupos minoritários, alguns alienados, que o que menos lhes interessa é a sua sustentabilidade. A introdução do voto electrónico que permita a todos os sócios poder votar, era para ontem. Urge mudar os Estatutos.

No meio da podridão que é de facto o futebol português, o Sporting e os sportinguistas, os que realmente o são, devem ter bastante orgulho de não ter as mãos sujas por processos judiciais de corrupção, incluindo os que estão na ordem do dia, relacionados com fugas ao fisco. Neste panorama, o Sporting CP é um Clube exemplar. Não é como disse alguém um Clube de malucos. Mas corre o risco de o ser se não travar os malucos que andam à solta a conspurcar a sua imagem.

O Sporting sobreviverá porque é muitíssimo grande, em todos os sentidos. Mas é preciso assumir que o deveras infame recém-passado apenas deve subsistir como má memória e ensinamento para o presente e para o futuro. A minoria ruidosa que confunde o Sporting como uma mera quinta de uma qualquer "religião" com o seu deus, não pode ter nas suas mãos o poder de destabilizar quando lhes apetece. Pela sobrevivência, pela recuperação do prestígio, dentro e fora dos relvados.

publicado às 03:35

Cair na real - "Vendi para sobreviver"

Naçao Valente, em 08.02.20

A recém-entrevista concedida ao jornal Record, dividida em duas partes, aborda de forma pormenorizada a situação actual do Sporting CP, descrevendo e justificando o caminho seguido. Na primeira parte, desenvolve a situação financeira, e os seus reflexos na vertente desportiva. Na segunda parte serão analisados assuntos como ataque a Alcochete, claques, contestação. Dada a extensão desta entrevista, com muitos pormenores, a análise que aqui deixo para reflexão dos leitores, focar-se-á em aspectos que considero estruturantes. Para uma percepção mais precisa da entrevista, aconselho a fazerem a sua leitura na íntegra.

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Na primeira parte da entrevista, o presidente do Sporting abordou de forma objectiva a situação real do Clube. Focou-se no seu mandato e explicou a razão das medidas tomadas, que sempre foram condicionadas pela área financeira. Deste modo, afirmou que havia uma necessidade de tesouraria de 215 milhões de euros. Conseguiu com a venda de activos receber 115 milhões que permitiram colmatar os pagamentos mais urgentes. Desta verba foram gastos 25 milhões (12 no inverno e mais 13 no verão) na aquisição de jogadores. A negociação com os bancos aos quais deve 118 milhões, continua.

No final da época anterior, a Direcção percebeu que a preparação da próxima estava muito dependente da transferência de Bruno Fernandes. Acontece que a proposta que chegou ao Sporting era de 45 milhões de euros mais 25 em resultados variáveis. Na altura foi decido não a aceitar, por ser considerada insuficiente. A decisão implicou falta de qualquer verba para aquisições, algumas das quais estavam previstas, como a de Robertone, entre outras. Assim, houve a necessidade de recorrer a empréstimos possíveis, que nas circunstâncias não correram bem. Frederico Varandas admite que essa decisão foi um erro, assim como outras  referidas nas suas respostas. 

Numa descrição detalhada sobre a estratégia, afirma que esta se centrou, prioritariamente, em garantir a sustentabilidade financeira. Hoje, afirma, esse problema está ultrapassado, embora ainda exista um défice de cerca de 25 milhões que precisa de ser compensado com aumento de receitas. Conclui que o Sporting como Clube sustentável está muito melhor.  Acrescentou ainda que não referiu esta situação há mais tempo por razões que se prendem a reacção dos mercados, quando a credibilidade do Sporting estava de rastos.

Como já tive ocasião de escrever aqui, a situação geral do futebol, mesmo admitindo erros, esteve muito condicionada pelos recursos financeiros. Sempre afirmei que o dinheiro das vendas inicialmente efectuadas, como as de Bas Dost e Raphinha, por exemplo, foi usado para pagamentos urgentes de tesouraria. O pouco dinheiro disponível tem sido utilizado na recuperação da Academia, que deixou de fornecer activos para o Clube como devia ser a sua função. Nessa linha já foram foram efectuados contratos em todos os escalões com atletas prometedores, que os clubes europeus cobiçavam.

Em conclusão, saliento a prioridade apresentada por esta Direcção: recuperação financeira para que o lube possa funcionar e continuar a ser dos sócios; a reactivação da Academia como motor da criação de activos/mais valias que garantam autonomia e sustentabilidade; aposta em jovens como Camacho ou Plaza; preparação atempada da próxima época com parte dos cerca de 35 milhões da venda de Bruno Fernandes, para compra de jogadores credenciados, e fazer  regressar atletas emprestados, como João Palhinha. Nota-se, porém, alguma imprecisão sobre a próxima época.

A verdade nua e crua é a melhor forma de esclarecer devidamente os adeptos, e de os fazer sair da fantasia em que viveram ainda há poucos anos, e na qual têm vivido há muitos mais. Ou os sócios "caem na real" ou a agonia do Sporting, que não é recente, continuará.

A avaliação da Direcção de um clube deve fazer-se em relação ao seu trabalho global.  Os sócios/adeptos que teimam em concentrar a sua análise apenas nos resultados desportivos transitórios, cometem um erro, e não estão a ajudar o Sporting a reerguer-se. No entanto, quero justamente distinguir os adeptos que reagem de forma meramente emotiva, dos que propositadamente agem de má fé, em função de interesses que não são os do Sporting.

Numa nota final considero que poderá haver uma ou outra afirmação contestável, e que há em certos aspectos algum "dourar da pílula". É preciso dar esperança às hostes mas de forma puramente realista. 

Por fim, numa opinião pessoal, que tenho vindo a defender, a avaliação de uma Direcção também não pode depender da performance de uma modalidade, por mais importante que esta seja, mas pelo trabalho global que está a efectuar, para garantir um rumo coerente e consistente para o Sporting CP, sustentado na saúde financeira, e que permita dar passos seguros numa competetividade constante.

publicado às 03:05

O estado do Sporting

Naçao Valente, em 31.01.20

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Tenho seguido o grande debate sobre o estado do Sporting na comunicação social e nas redes sociais. Depois de tudo espremido chego a uma conclusão pessoal que admito possa ser polémica: o que vejo discutir-se são minudências. Procurando ser mais explícito o que é que se discute? Se perdemos um ou outro jogo, com os rivais directos ou não, se estamos ou não a dezanove pontos do primeiro lugar, se não ganhamos nenhum título, se temos uma equipa fraca, se nos faltam defesas ou médios, se compramos mal, se o treinador tem ou não tem competência, se a Direcção deve ou não cumprir o mandato, se a estrutura do futebol actua bem ou mal. Em conclusão pequenos assuntos apenas relacionados com o futebol profissional.

Na minha perspectiva é uma discussão irrelevante no que ao Sporting Clube de Portugal diz respeito, porque a Instituição é muito mais que uma equipa de futebol de profissional, embora este seja fundamental, porque a sua existência está ligada a um glorioso e ecléctico percurso. No ciclismo, que mobilizava o povo de Norte a Sul do país e fez crescer o número de adeptos, no hóquei em patins, que colava o mundo leonino à rádio, nos seus tempos dominantes, e no atletismo, que fornecia campeões internacionais a Portugal,  apenas para dar alguns exemplos.

O passado é história, eu sei, mas foi nela que se caldeou o grande Clube que hoje temos. E, precisamente por isso, recorro a essa história para sublinhar que a grandeza do Sporting CP não pode estar dependente de minudências. Durante mais de um século aconteceram vitórias e derrotas, títulos perdidos ou ganhos, por pequenos pormenores, com grandes ou pequenas distâncias pontuais. Há nessa história fases boas e menos boas, grandes e menos grandes equipas, assim como períodos de maior ou de menor domínio. Com o orgulho de, como já tenho escrito, terem as nossas conquistas sido feitas dentro do que consideramos a verdade desportiva.

O desporto, em geral, e o futebol, em particular, evoluíram, acompanhando a evolução da sociedade. A passagem épica do amadorismo para o profissionalismo tornou o desporto e o futebol numa gigantesca indústria que hoje move muitos milhões. A transparência foi sendo substituída pela opacidade. O Sporting CP, na sua genuinidade/ingenuidade, não se adaptou bem a essa mudança, mas não deixou de ser o grande Clube graças à sua massa adepta, que se perpetua como uma grande família. Se o Sporting dependesse somente de resultados mais ou menos pontuais do futebol, para ser uma Instituição de referência,  já não existiria. Portanto, repito,  colocar a discussão no patamar de resultados transitórios é uma perda de tempo inconsequente.

O que o Sporting CP precisa de discutir, para além da espuma dos dias, é um projecto que alavanque o presente e que garanta o futuro. Com ideias, com elevação, longe do ruído dos estádios, à margem da bola que entra ou não, e da conversa de café que deve servir apenas para o adepto "lavar a alma" como sempre aconteceu, mas não mais do que isso.

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II

Um projecto estruturado não pode estar apenas dependente dos títulos a curto prazo. Tem de apontar em primeiro lugar para a construção de uma estrutura financeira sólida. Passa por tirar de imediato o Sporting do estrangulamento financeiro em que vive há muito, sempre à beira da insolvência em primeiro lugar e da falência logo a seguir. 

Em primeiro lugar, os adeptos têm que ser devidamente informados da situação real. As despesas não podem continuar a ser superiores às receitas, nomeadamente os gastos com o futebol profissional, que arrastam a parte de leão. Isso implica constituir uma equipa de futebol condizente com os recursos, que represente o Clube com total dignidade e lute pelos melhores lugares, sem estar sujeita à pressão dos títulos, independentemente de os conquistar.

A aposta continuada e consistente na formação, muito abandonada nos últimos anos, tem de ser (já devia ser)... o alfa e o ómega do Clube, gerando activos tanto na área desportiva como na financeira.  A abordagem ao mercado precisa de ser muito mais criteriosa, com a constituição de uma equipa de pesquisa competente, que avalie possíveis activos, seguidos e observados durante um tempo conveniente. Este tem de ser um trabalho de fundo, que produza mais "nozes que vozes".

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III

Este pode ser o bom caminho se os adeptos quiserem e acreditarem que é possível. Mas há outros. Eu não sou, em teoria, favorável à venda da maioria da SAD. Mas vivo na realidade e não costumo meter a cabeça na areia. Assim sendo, e se outra solução não resultar, não vejo qual seja a alternativa, e não apenas para o Sporting. Apesar de ser uma questão que não está em cima da mesa, não será inoportuno começar a fazer sobre ela uma reflexão sem tabus.

A ideia recorrente que o Sporting CP, ou qualquer outro clube, é dos sócios, parece-me uma ilusão. O Sporting é e será de quem tiver capacidade para gerar o capital que permite o funcionamento do Clube. A contribuição financeira dos associados é uma gota de água no cômputo geral das despesas. Os seus direitos, expressos nos Estatutos, consistem em eleger ou demitir os Órgãos Sociais, aprovar orçamentos, e regalias no acesso a recintos desportivos, como contrapartida de pagamento das quotizações. E não é coisa pouca.

Daí a considerarem-se donos do Clube vai uma enormíssima distância. Comparativamente e para explicitar com absoluta clareza o que pretendo dizer, todos nós temos por hábito afirmar, enquanto portugueses, que o País é nosso. É verdade que escolhemos os nossos representantes, produzimos riqueza, pagamos impostos, no fundo financiamos o Estado para cumprir as suas funções. Mas é deste modo que funcionam os clubes desportivos?... De maneira nenhuma. A realidade é que a contribuição financeira dos adeptos não garante a sua sustentabilidade. Esta vem da publicidade, da venda de activos, da participação em provas, e desinvestimentos feitos por accionistas. Se os sócios querem que o Clube tenha "ad eternum" a maioria da SAD, têm de garantir, "de persi" a respectiva sustentabilidade, mas nem sequer vejo sócios endinheirados a avançar com o seu dinheiro.

Se se conseguir encontrar o equilíbrio financeiro, o Sporting continuará a ter a maioria da SAD, e será um grande clube nacional, mas tendo em conta a dimensão do país e do nosso mercado, será sempre uma equipa de futebol mediana no contexto europeu. Assim como qualquer outro clube português. Não vejo que nenhum passe desta mediania, sem que primeiro se disponha a vender a maioria do capital a um investidor que aumente bastante o acometimento. É uma questão de opção, e de realismo.

P.S.: Enquanto há quem trabalhe para tornar o Clube mais sustentável, há outros, que sem qualquer responsabilidade e sem qualquer solução viável, teimam em desestabilizar, brincando às demissões, sem razões plausíveis. Lamentável.

publicado às 04:33

Varandas está só

Naçao Valente, em 10.01.20

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As claques como grupos organizados, e constituídos por jovens, têm a sua origem nos anos sessenta. O seu objectivo era apoiar as equipas, dando-lhes motivação na sua acção em campo. Agiam por amor ao clube e nada recebiam para além da satisfação de participar e receber bons resultados desportivos.

As claques evoluíram acompanhando os tempos, mas evoluíram no pior sentido. Passaram de grupos de adeptos que davam, com generosidade, o seu apoio, para grupos subsidiados, como uma espécie de animadores profissionais, que começaram a extravasar o motivo para que foram criadas. São hoje um contra-poder que se arroga  a intervir na gestão do próprio clube, pressionando decisões dos dirigentes. 

Enfeudadas no Sporting Clube de Portugal à Direcção que foi destituída, tornaram-se na sua guarda pretoriana. Com a queda dessa Direcção, assumiram-se como oposição aos novos dirigentes eleitos, ao ponto de irem para os jogos criticar e insultar o Presidente, à boleia de maus resultados negativos. A situação atingiu tal dimensão, que Varandas teve de agir com firmeza, tomando as medidas, impopulares, que se exigiam.

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Passados meses,Varandas mantém a mesma firmeza mas está só. Os presidentes de outros clubes, que de forma clara ou até encapotada, se servem das claques, nas quais se apoiam, como um grupo que utilizam para a luta contra os adversários, assobiam para o lado. E enquanto estas não se virarem contra a sua autoridade não irão mexer uma palha. Deste lado, não pode esperar Varandas qualquer solidariedade.

O poder político foge do mundo do futebol e da sua irracionalidade como o diabo da cruz. Tem medo de meter-se com gente que se apoia em milhões de adeptos, que enquanto tal, consideram os dirigentes do seu clube, como cidadãos acima da lei, inatacáveis e dispostos a guerrear em seu nome. Deste lado, tirando umas promessas vãs de alguns governantes de segunda linha, Varandas dificilmente terá qualquer apoio.

Os vários acontecimentos de comportamento selvagem de adeptos, utilizando artefactos pirotécnicos proibidos num jogo de futebol, trouxe para a actualidade, um assunto que é transversal a todos os clubes. Esta violência gratuita não tem a ver com rivalidade, e devia preocupar a sociedade. O poder político ao mais alto nível, devia ser pressionado para agir de forma drástica. A escumalha, para usar as palavras de Varandas, não pode continuar impune a espalhar o medo pelos recintos desportivos. 

Como é possível que os dirigentes desportivos vejam os seus adeptos a causar distúrbios num jogo que devia acontecer dentro das quatro linhas e não tome nenhuma medida, para além de algumas lágrimas de crocodilo? No combate a esta situação Varandas está só, mas está no bom caminho. A indústria do futebol agradece num país que se quer civilizado.

Nota: título utilizado na coluna de opinião do Director de Record

publicado às 04:34

Paroles, paroles, paroles

Naçao Valente, em 07.01.20

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Quando ainda na infância tomei contacto com a língua francesa havia um texto no livro oficial que me atraía quer pela sonoridade, quer pelo conteúdo. Tinha o título "Paroles, paroles, paroles".

Este texto veio-me à lembrança a propósito de certo "lupemproletariado do futebol". Isto é toda essa gente que come das muitas migalhas que caem da sua farta mesa, ora como comentadores profissionais de clubes, ora como jornalistas pretensamente isentos. Eles vivem de palavras, respiram palavras, com as quais rendilham opiniões, fazem juízos, destilam sabedoria, arriscam previsões, especulam. No fundo arrotam "postas de pescada" numa expressão mais brejeira.

Os comentários que se ouviu após o Sporting-FC Porto, para além das peripécias do jogo, bem espremidos, trazem pouco sumo, ou seja conteúdo irrelevante. Palavras, palavras, palavras. Eis alguns exemplos: quererão os melhores activos do Sporting, dizem, continuar no Clube quando já não há nenhuma motivação para jogar, por já estar afastado de títulos? E a resposta é indubitavelmente, não. E na mesma linha de raciocínio decretam que foi-se o campeonato, foi-se o segundo lugar, foi-se a Taça de Portugal, a Taça da Liga enfim, e a Liga Europa há-de ir.

Para não cair no mesmo erro e porque não gosto de discutir questões de "lana caprina" apenas me interrogo a quem interessa este destilar de verborreia futurista. Ao desporto, ao futebol, aos clubes ? Se neste país ou noutro há dois ou três títulos para ganhar, por três ou menos clubes, porque e para que jogam todos os outros? Os jogadores de grande qualidade que jogam nos clubes que não ganham títulos, andam todos desmotivados?

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Outro aspecto que me parece irrelevante e até ridículo tem a ver com previsões baseadas numa determinada lógica. Ora se há actividade onde a lógica é deveras  falível é no futebol. Lembro-me destes encartados da "ciência futebolística" terem posto "de caras" fora da final da Taça da Liga o Sporting, exactamente pela mesma lógica discursiva.Enganaram-se redondamente, engoliram o sapo, mas continuaram no mesmo registo.

Crucificam-se jogadores porque erram, treinadores porque perdem, dirigentes porque se enganam, mas estes "entertainers" são intocáveis. Inventam, erram como ninguém, mas nunca caem do pedestal comunicativo. Talvez porque nada produzem. São, por exemplo, como os notórios críticos literários que nunca escreveram um livro, nem o sabem escrever, mas arrasam quem o faz.

E as discussões sobre as arbitragens, senhores? Dão vontade de rir para não chorar. São sempre moldadas pelas bitolas do clubismo. E a apreciação dos penáltis? Os expert, os ex-árbitros, são grandes contorcionistas, na justificação do que querem provar. Dou como exemplo a última jornada. Nos lances "duvidosos" nos jogos do Benfica e Porto, tanto podiam ser como não ser, concluíram. É questão de critério pessoal. Pois, à conveniência...

E a continuação da selvajaria levada para os estádios pelas claques organizadas ou "não organizadas"? Repúdio e mais repúdio. Mais conversa fiada. Acção zero. Uma vergonha sem limites, com a inércia dos clubes, com a apatia dos órgãos oficiais e do Governo. 

Diz um ditado: "quem não tem mais nada para fazer, faz colheres". Entendo o sentido, mas as colheres ainda servem para alguma coisa. Agora este "lupem" que gravita à volta do futebol que ocupa horas e horas de debates "inúteis" para que serve?  Circo, sem pão?

publicado às 11:30

Guerra suja

Naçao Valente, em 04.01.20

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Nota introdutória:

Um texto aqui publicado sobre o poder da maçonaria com base nas afirmações de um político,  levou-me a fazer esta reflexão sobre a natureza do poder na sociedade, no desporto e no futebol profissional.

A natureza do poder

O poder é desde os primórdios da humanidade exercido por grupos restritos de homens, no sentido genérico. Acontece que o homem, independentemente da sua evolução, é um ser imperfeito. É constituído por algumas virtudes, mas também por muitos defeitos. Destaco o egoísmo, a inveja, a prepotência, a desonestidade, entre outros.

Deste modo, o exercício do poder sempre constituiu uma forma de opressão de grupos minoritários sobre grandes maiorias, nomeadamente quando demagogos, portadores de utopias igualitárias o conquistaram, como nos regimes comunistas. E não podia ser de outro modo porque, voltando à proposição inicial, isso está de acordo com a natureza humana, mesmo depois de milhares de anos de algum aperfeiçoamento.

Está provado, no registo histórico, que todo o poder corrompe, seja em que nível for. Corrompe desde os pequenos poderes até ao poder total. Assim sendo,  o mundo do desporto em geral e do futebol em particular não foge, antes pelo contrário, à tendência geral.

Poder e futebol em Portugal

Durante o período que podemos considerar o da inocência o nosso futebol, constituído por atletas que competiam por prazer e amor à camisola, este manteve  alguma integridade na forma como encarava a competição, na maneira como a disputava, no "desportivismo" como aceitava vitórias e derrotas.

O Sporting, foi o primeiro clube,  graças à reunião de um grupo de atletas do melhor que havia em Portugal, a conseguir vitórias constantes e consecutivas, conseguidas no espaço das quatro linhas. Quando estes atletas foram saindo de cena, e porque não existia formação organizada, e não os conseguiu substituir por outros de igual valia, foi perdendo capacidade de conseguir os mesmos resultados.

A transformação do futebol numa indústria, que gera e movimenta muitos milhões, trouxe para o futebol os malefícios do capitalismo. Dinheiro e poder são duas faces da mesma moeda. Quem tiver mais dinheiro consegue mais poder, e consequentemente mais dinheiro. Dinheiro e poder são sinónimo de corrupção seja de forma descarada ou subtil.

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A guerra suja

Nuno Pinto da Costa, com tanto de inteligência quanto de capacidade de agir sem olhar a meios para atingir os fins, foi o primeiro a instalar, com o seu pequeno e fiel grupo, um esquema para dominar o mundo do futebol, infiltrando os seus homens de mão, em todas as instâncias ligadas ao controle desse novo mundo de poder. 

Durante anos, com a passividade e ingenuidade de outros clubes, montou a sua teia de modo a que quando não se conseguia ganhar apenas com as armas que actuavam dentro do campo, de fora viesse o devido empurrãozinho. Este domínio a que Dias da Cunha denominou de "sistema" acabou por ser denunciado, levando ao seu desmoronamento, mas onde apenas o "peixe miúdo" caiu na rede e serviu de bode expiatório.

Nos anos sessenta o Benfica, devido à constituição de uma equipa de grande valor que foi a base de um terceiro lugar no campeonato do mundo de selecções, dominou o futebol em Portugal e teve êxitos em provas europeias. Com o fim desta equipa voltou a cair na vulgaridade, quando os "homens do Norte" já tinham em marcha o seu programa de hegemonia.

A queda do "sistema do Norte" e depois de anos à deriva, em que o desespero levou o Benfica a embarcar na aventura de demagogos populistas, tal com o Sporting mais recentemente, acordou para a realidade e percebeu que o êxito desportivo, nestes novos tempos, era indissociável do controle das instâncias que superintendem esta indústria. Ocupar o vazio deixado exigia tempo e paciência.

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Luís Filipe Vieira, um 'self made man', um expert em "chico espertismo" , que bebeu da experiência dos "homens do Norte" em curva descendente, propôs-se ocupar esse vazio. Respaldado nos milhões de adeptos de todas as classes sociais, transversais a toda a sociedade, iniciou o processo de domínio, lento mas seguro, e com a paciência que estes demonstraram durante anos de reduzidos êxitos desportivos, levou a água ao seu moinho.

Montado o "novo sistema" começaram a colher-se os frutos. Hoje o poder dos "homens da Luz" está entranhado, nas diversas estruturas desportivas e políticas. Contando com a influência de adeptos em todas as instâncias, principalmente no poder judicial, dão-se ao luxo de passarem à margem das malfeitorias cometidas.

Dizer como o político referido que têm mais poder que a maçonaria não passa de uma "graçola". Têm mais poder que o próprio poder que os venera e os receia, assim como ao seu "exército" de milhões de adeptos, sempre prontos, com as devidas excepções, a dar cobertura a todas as ilegalidades cometidas, desde que elas representam a hegemonia no futebol nacional.

O Sporting impreparado para entrar nesta guerra de domínio, desde o seu início, nos anos sessenta e setenta, tem ficado fora do "sistema". João Rocha um dirigente íntegro e fundamentalmente honesto, apesar de um ou outro êxito desportivo, deixou-se ultrapassar pelos acontecimentos. Sousa Cintra, um expert do "chico espertismo" mas muito ingénuo, continuou na mesma linha.  Roquete e Dias da Cunha, que quiseram trazer dignidade para o clube e para o futebol, foram derrotados pela "hidra de sete cabeças" e pela impaciência dos adeptos. A demagogia brunista baseada mais no espalhafato do que na inteligência, foi uma pêra doce para o "sistema" acabando por afundar mais o clube.

Reflexão conclusiva

O poder é de quem o conquista. Na sua conquista não há princípios, nem valores, nem se olha a meios. Com o poder, com a sua conquista, está desonestidade e corrupção. Acredito que muitos sportinguistas, porque não fogem à natureza humana, não se importariam de ver o nosso Clube usar as mesmas armas para conseguir o domínio. Pela minha parte interrogo-me se vale a pena vencer sem olhar a meios. Sei que este é o mundo que temos. Mas sem  pretensão de qualquer tipo de superioridade, enoja-me, e gosto de ver o meu Clube fora desta guerra suja.

P.S.: Costumo ler comentários a dizer que o Sporting, nos seus tempos áureos, era o clube do regime. Discordo. Todos os clubes tiveram nas suas direcções gente do regime. Nunca vi nenhum ser, nessa altura contra-poder. Todos foram clubes do regime, de acordo com as conveniências desse poder. O que não foram foi um poder dentro do poder, até porque este não precisava deles para o exercer. Neste momento se há clube que se possa considerar do regime é o Benfica.

publicado às 04:33

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